"Mas a paciência, a doçura, a resignação, a integridade, a justiça imparcial, são bens que levamos conosco e com os quais podemos nos enriquecer sempre, sem temer que a própria morte diminua nosso valor. É a esse único e útil estudo que consagro o restante de minha velhice. Ficarei feliz se, com o progresso sobre mim mesmo, aprender a sair da vida, não melhor, pois isso não é possível, porém mais virtuoso do que nela entrei."
"Essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distração, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis."
"O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus males; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz."
"De que serve aprender a melhor conduzir seu carro quando se está no fim da corrida? Só resta pensar como sair dela. O estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer, e é justamente o que menos se faz na minha idade; se pensa em tudo, menos nisso. Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, veem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudesse levar na morte."
"Pensei tudo isso quando era tempo de pensá-lo, e se não soube tirar melhor partido de minhas reflexões não foi por deixar de fazê-las a tempo e não tê-las digerido bem. Atirado, desde a infância, no turbilhão da sociedade, aprendi em boa hora através da experiência que não fora feito para nela viver e que nela nunca chegaria ao estado de que meu coração sentia necessidade. Cessando, portanto, de buscar entre os homens a felicidade que sentia ali não poder encontrar, minha ardente imaginação saltava por sobre a extensão de minha vida, recém-começada, como por um terreno que me fosse estranho, para repousar em um estado tranquilo em que pudesse me fixar."
"A meditação no recolhimento, o estudo da natureza, a contemplação do universo forçam um solitário a se erguer de maneira constante ao autor das coisas e a procurar com uma dúvida inquietante a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando meu destino me lançou na torrente da sociedade, não encontrei nada mais que pudesse deleitar por um instante meu coração."
"Ao me libertar de todas essas armadilhas, de todas essas vãs esperanças, entreguei-me por completo à despreocupação e ao repouso do espírito que sempre foram meu meu interesse mais dominante e minha inclinação mais duradoura. Deixei a sociedade e suas pompas, renunciei a todo adereço, sem espada, sem relógio, sem meias brancas, douraduras, penteados, uma peruca bem simples, uma grossa veste de pano, e melhor que tudo isso, extirpei de meu coração os desejos e as cobiças que dão valor a tudo o que abandonava. Renunciei à posição que ocupava, para a qual não era de modo algum apto."
"Observei, nas vicissitudes de uma longa vida, que as épocas dos deleites mais doces e dos prazeres mais vivos não são, porém, as épocas cuja lembrança mais me atrai e toca. Esses breves momentos de delírio e de paixão, por mais vivos que possam ser, não passam, no entanto, por sua própria vivacidade, de pontos bastante dispersos na linha da vida. Eles são raros e rápidos demais para constituírem um estado, e a felicidade de que meu coração sente falta não é composta por instantes fugidios, mas de um estado simples e permanente, que nada tem de intenso em si, mas cuja duração aumenta o encanto a ponto de nele por fim encontrar a suprema felicidade."
"Tudo na terra está em um fluxo contínuo: nada mantém uma forma constante e fixa, e nossas afeições, que se apegam às coisas externas, necessariamente passam e mudam como elas. Sempre à frente ou atrás de nós, elas lembram o passado que não é mais ou preveem o futuro que muitas vezes não deve acontecer: não existe nada sólido a que o coração possa se apegar. Assim, neste mundo, só conhecemos o prazer que passa; a felicidade que dura, duvido que seja conhecida. Mal existe, em nossos mais vivos prazeres, um instante em que o coração possa de fato dizer: 'Eu gostaria que esse instante durasse para sempre'. E como chamar de felicidade um estado fugidio que nos deixa o coração inquieto e vazio, que nos faz sentir falta de algo antes ou desejar ainda algo depois?"
"Tantas experiências cruéis, aos poucos, mudaram minhas disposições originais, ou melhor, por fim encerrando-as em seus verdadeiros limites, me ensinaram a seguir de maneira menos cega minha inclinação para a caridade, que servia apenas para facilitar a maldade alheia. Mas não lamento essas mesmas experiências, pois me proporcionaram, através da reflexão, novas luzes sobre o conhecimento de mim mesmo e sobre os verdadeiros motivos de minha conduta em mil circunstâncias sobre as quais com frequência me iludi. Vi que para fazer o bem com prazer seria preciso agir com liberdade, sem coação, e que para perder toda a doçura de uma boa ação bastaria que ela se tornasse um dever."
"Uma boa ação puramente gratuita é com certeza uma obra que gosto de fazer. No entanto, quando aquele que a recebe se atribui o direito de exigir uma continuação sob pena de ódio, quando me obriga a ser para sempre seu benfeitor, por ter antes gostado de sê-lo, na mesma hora o incômodo começa e o prazer se esvai."
"Existem certas adversidades que elevam e dão força à alma, mas existem outras que a abatem e matam."
"Algumas vezes, meus devaneios terminam em uma meditação, mas quase sempre minhas meditações terminam em um devaneio e, durante esses descaminhos, minha alma erra e plana no universo, nas asas da imaginação, em êxtases que ultrapassam qualquer outro prazer."
"Revivificada pela natureza e coberta com seu vestido de núpcias em meio ao curso das águas e ao canto dos pássaros, a terra oferece ao homem, com a harmonia dos três reinos, um espetáculo cheio de vida, de interesse e de encanto, o único espetáculo no mundo que nunca cansa seus olhos e seu coração. Quanto mais o contemplador tiver a alma sensível, mais se entregará aos êxtases que essa harmonia lhe provoca. Um devaneio doce e profundo se apodera de seus sentidos, e ele se perde com deliciosa embriaguez na imensidão desse belo sistema com o qual se sente identificado. Todos os objetos particulares lhe escapam; ele nada vê e nada sente senão no todo."
"Me tornei solitário ou, como dizem, insociável e misantropo, porque a mais selvagem solidão me parece preferível à companhia dos maus, que só se alimentam de traições e ódio."
"Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um teto pode nos machucar muito, mas não nos fere mais que uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe às vezes erra o alvo, mas a intenção nunca o perde. A dor física é a que menos sentimos nos golpes da sorte, e quando os desafortunados não sabem a quem culpar por suas desgraças, culpam o destino, que personificam e a que emprestam olhos e inteligência para atormentá-los de propósito. É assim que um jogador desapontado com suas perdas se enfurece, sem saber contra quem. Ele imagina uma sina que o persegue de propósito para atormentá-lo e, encontrando alimento à sua cólera, se excita e inflama contra o inimigo que criou para si. O homem sensato que vê em todas as desgraças que lhe acontecem apenas os golpes da cega fatalidade não tem essas agitações insensatas, grita em sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; sente do mal de que é vítima apenas o alcance físico; os golpes que o atingem podem ferir sua pessoa, mas nenhum consegue chegar a seu coração. É muito chegar a esse ponto, mas não basta chegar aí. É bom ter cortado o mal, mas é ter deixado a raiz. Pois essa raiz não está nos seres que nos são estranhos, ela está em nós mesmos, e é ali que é preciso trabalhar para arrancá-la de todo."
"Ao sair de minha casa, anseio pelo campo e pela solidão, mas é preciso procurá-los tão longe que, antes de poder respirar à vontade, encontro em meu caminho milhares de objetos que me apertam o coração, e a metade do dia se passa em meio a angústias antes que eu chegue ao refúgio que busco. Fico feliz quando pelo menos me deixam concluir meu percurso. O momento em que escapo ao cortejo dos maus é delicioso, e assim que me vejo sob as árvores, no meio da vegetação, creio me encontrar no paraíso terrestre e experimento um prazer interno tão intenso quanto se fosse o mais feliz dos mortais."
"A felicidade é um estado permanente que não parece feita para o homem neste mundo. Tudo na Terra está em um fluxo contínuo que não permite a nada assumir uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós mesmos mudamos, e ninguém pode garantir que amará amanhã aquilo que ama hoje. Assim, todos os nossos projetos de felicidade nessa vida são ilusões. Aproveitemos o contentamento do espírito quando ele ocorre, evitemos afastá-lo por erro nosso, mas não façamos projetos para acorrentá-lo, pois tais projetos são puras tolices."
"As pequenas privações são suportadas sem dificuldade quando o coração é melhor tratado que o corpo."