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Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

"Como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou triste, É dessa massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade."

"Não quero acreditar que isto está a acontecer, é contra todas as regras de humanidade, É melhor que acredites, porque nunca te encontraste diante de uma verdade tão evidente."

"O que queria era fingir outra preocupação, o que queria era não ter que abrir os olhos."

"Com a mão trêmula, a rapariga punha algumas gotas de seu colírio. Assim sempre poderia dizer que não eram lágrimas o que lhe estava escorrendo dos olhos."

"Se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as conseqüências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nosso ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprova-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala."

"Psicologicamente, mesmo estando um homem cego, temos de reconhecer que há uma grande diferença entre cavar sepulturas à luz do dia e depois de o sol desaparecer."

"Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são."

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

"As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjetivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportam muito, suportam tudo, era como se levassem uma armadura."

"É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver."

"Assim está o mundo feito, que tem a verdade muitas vezes de se disfarçar de mentira para chegar aos seus fins."

"Não há nada melhor para fazer mudar de opinião do que uma sólida esperança."

"É preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa, e tem nas mãos todas as cartas do baralho, a nós compete-nos inventar os encartes com a vida." 

"E estava imóvel, tenso, como se quisesse reter os pensamentos, ou pelo contrário, impedi-los de continuarem a pensar."

"A pensar que ainda existia vida no mundo, a perguntar se ainda haveria uma parte dela para si."

"O difícil não é ter que viver com as pessoas, o difícil é compreendê-las."

"Aqueles seis degraus lá fora vão ser como um precipício, mas enfim, a queda não será grande, o costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, por si só, já é um alívio. Daqui não passarei, é o primeiro pensamento, e às vezes, o último, nos casos fatais."

As pequenas memórias - José Saramago

"Que lhe havia eu de fazer? Fingir um amor que não sentia? Os sentimentos não se governam, não são coisas de tirar e pôr de acordo com as conveniências do momento, menos ainda se, pela idade, é um coração desprevenido e isento o que levamos dentro do peito."  

"Na verdade, a crueldade infantil não tem limites (é essa a razão profunda de não os terem também a dos adultos)."

"O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma coisa em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pôde ser nunca."

"Muitas vezes esquecemos o que gostaríamos de poder recordar, outras vezes, recorrentes, obsessivas, reagindo ao mínimo estímulo, vêm-nos do passado imagens, palavras soltas, fulgurância, iluminações, e não há explicação para elas, não as convocámos, mas elas aí estão."

"E ela, sem mais palavras, respondeu: 'O José Dinis morreu.' Éramos assim, feridos por dentro, mas duros por fora. As coisas são o que são, agora se nasce, logo se vive, por fim se morre, não vale a pena dar-lhe mais voltas, o José Dinis veio e passou, choraram-se umas lágrimas na ocasião, mas o certo é que a gente não pode levar a vida a chorar os mortos."

Objecto Quase - José Saramago

"Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já está lá dentro."

Fragmento trazido pelo vento

"Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos." (O ano da morte de Ricardo Reis - José Saramago)

Claraboia - José Saramago

"Ouvia lá dentro um ruído de vozes: a mãe e a tia falavam. Muito falavam aquelas mulheres. Que tinham elas a dizer todo santo dia, que já não estivesse já dito mil vezes?"

"A paisagem era sempre igual, mas só a achava monótona no dias de verão teimosamente azuis e luminosos em que tudo é evidente e definitivo. Uma manhã de nevoeiro como esta, de nevoeiro delgado que não impedia de todo a visão, cobria a cidade de imprecisões e de sonho."

"– Não pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se é completamente bom ou completamente mau. Acho eu – acrescentou, timidamente.
Amélia virou-se para a irmã, empunhando a colher com que provava a sopa:
– Essa não está má. nesse caso, não tens a certeza de que é bom aquilo de que gostas?
– Não, não tenho.
– Então, por que gostas?
– Gosto porque acho que é bom, mas não sei se é bom."

“– Diz-me lá, se sabes, o que é o bem e o mal. Onde acaba um e começa o outro?
– Isso não sei, nem é pergunta que se faça. O que sei é reconhecer o mal e o bem onde quer que estejam...
– De acordo com o que pensas a respeito deles...
– Nem podia ser de outra maneira. Não é com as ideias dos outros que eu ajuízo!
– Pois é aí que está o ponto difícil. Esqueces que os outros também têm as suas ideias acerca do bem e do mal. E que podem ser mais justas que as tuas...
– Se toda a gente pensasse como tu, ninguém se entendia. É preciso regras, é preciso leis!
– E quem as fez? E quando? E com que fim?
Calou-se durante um breve segundo, e perguntou com um sorriso de malícia inocente:
– E, afinal, pensas com as tuas ideias ou com as regras e as leis que não fizeste?”

"A preocupação era demasiada para ceder ao jogo dos músculos que comandam o sorriso."

"Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera."

“Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. (...) A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.”

“Mas a compreensão é uma palavra. Ninguém pode compreender outrem, se não for esse outrem. E ninguém pode ser, ao mesmo tempo, outrem de si mesmo.”

“A experiência, não sendo aplicada, é como o outro imobilizado: não produz, não rende, é inútil. E de nada vale a um homem acumular experiência como se colecionasse selos.”

“Quem tiver sede de humanidade não a irá matar nos versos de Fernando Pessoa: será como se bebesse água salgada.”

“A verdade, às vezes, parece indecência. Tudo está bem enquanto não se começam a dizer indecências, enquanto não se começam a dizer verdades!”

“A sua única compensação estava no amor, não no amor obrigatório do parentesco, tantas vezes um fardo imposto pelas convenções, mas o amor espontâneo que de si mesmo se alimenta."

A Bagagem do Viajante - José Saramago

"Se eu tiver um palácio e lhe chamar 'a minha barraca', afasto com isso o raio que é atraído pelos lugares altos?"

"Ao contrário do que afirmam os ingênuos (todos os somos uma vez por outra), não basta dizer a verdade. De pouco ela servirá ao trato das pessoas se não for crível, e talvez devesse até ser essa a sua primeira qualidade. A verdade é apenas meio caminho, a outra metade chama-se credibilidade. Por isso há mentiras que passam por verdades, e verdades que são tidas por mentiras."

“E se lhe doer a cabeça, é bom sinal: também, ao que dizem, nascer é um sofrimento.”

“No meu fraco entender, as verdades, morais ou imorais (e sobretudo estas), deveriam andar bem à vista de toda a gente, como a cor dos olhos.”

“Não invento nada. Faço esta declaração imediata porque adivinho já os sorrisos solertes ou desconfiados daquela gente para quem o extraordinário é sempre sinônimo de mentira. Essas pobres pessoas não sabem que o mundo está cheio de coisas e de momentos extraordinários. Não os vêem, porque para eles o mundo aparece como coberto de cinzas, comido de verdete baço, povoado de figuras que usam roupas iguais e falam da mesma maneira, com gestos repetidos sobre gestos já feitos por outros desaparecidos seres. É gente para quem talvez não haja remédio, mas a quem devamos continuar a dizer que o mundo e o que está nele não são o tão pouco que julgam.”

“Como qualquer pessoa que do álcool faça apenas consumo normal ou abaixo da média, tenho um certo receio instintivo de bêbados. Para mim, saíram da humanidade do mundo, e criaram por lá umas leis que não conheço.”

“Mas as oportunidades e situações é que fazem e desfazem os homens.”

“Talvez a fraqueza de cada um de nós não seja irremediável. A vida está aí a nossa espera, quem sabe se para tirar a prova real do que valemos. Saberemos alguma vez quem somos?”

“Afinal, não é muito grande a diferença que há entre um dicionário de biografias e um vulgar cemitério. (…) Mas o visitante fará bem em não se deixar confundir pelos alçados de arquiteto, pelas esculturas e cruzes, pelas carpideiras de mármore, por todo o cenário que a morte pomposa desde sempre aprecia. Igualmente deverá dar atenção, se está em campo aberto, sem referências, ao sítio onde põe os pés, não vá acontecer que debaixo dos seus sapatos se encontre o maior homem do mundo.”

“Demasiado esquecemos que os homens são de carne facilmente sofredora. Desde a infância que os educadores nos falam de mártires, dão-nos exemplos de civismo e moral à custas deles, mas não dizem quanto foi doloroso o martírio, a tortura. Tudo fica no abstrato, filtrado, como se olhássemos a cena, em Roma, através de grossas paredes de vidro que abafassem os sons, e as imagens perdessem a violência do gesto por obra, graça e virtude da refração.”

“Este país de gente calada, que dificilmente junta duas ideias de forma inteligível, sem os bordões onomatopaicos a que a frase se vai laboriosamente encostando – é, ao mesmo tempo, um dos países em que mais se fala. Compreende-se por quê. Aquelas a quem é dada a autoridade e às vezes a ordem de falar, sabendo que falam para uma população de alheados, usam e abusam do verbo, numa espécie de jovial impunidade. De mais sabem eles que não terão contraditores, que ninguém lhes apontará as incoerências, os ilogismos, as contradições, os atentados contra a verdade, os erros de gramática. Em cada duas falas, quantas vezes repetidas no pouco vocabulário e nenhuma no estilo, há uma cápsula de silêncio protetor que, ao parecer, nada poderá quebrar ou sequer fender.”

“Uma dessas histórias, a mais breve que eu conheço, está contada em duas linhas e é isto apenas: 'E disse Deus: Faça-se a luz. E foi feita a luz.' (…) As velhas histórias pesam. Afirmam que a luz se fez e procedem hipnoticamente por repetição. Entretanto, o espírito cercado levanta a cabeça e pergunta: 'Qual luz? Onde? Para quem?'”

“E quando a fita acabava, voltávamos a casa, de coração apertado, com medo das sombras, das esquinas, do guarda-noturno, da escada sem luz. Toda a noite sonhávamos e suávamos de aflição. Bons tempos. Agora, os Dráculas e outros vampiros só conseguem fazer-nos rir.”

"Se não fosse a deliberada reserva em que me escondo, não sei que mais constante raiva por aí se expandiria."

O Livro dos Erros - Mário Goulart

"O diretor Barry Sonnenfeld, de A Família Addams, define o que é terror: 'Macabro é você estar na cama, numa noite de chuva, como convém, ouvir um carro cantar longamente os pneus, fechar os olhos, enlevado, preparar-se para estalar os dedos ao ouvir o estrondo – e aí não acontece nada, só o silêncio. Macabro é você ficar decepcionado com a batida que não houve'."

"Por que a lebre, menor e fraca, corre mais do que o cão de caça? (…) É porque a lebre trabalha para si, enquanto o cão de caça trabalha para seus donos."

"Rotina seguida à risca por José Saramago, que escreve sempre das 17h às 21h:
– Escrevo porque já almocei e janto porque já escrevi."

"Você decide, disse Henry Ford:
 – Se você acredita que é capaz, ou se acredita que não é capaz, de qualquer forma você tem razão."

"Sapatos de salto alto não prestam por um motivo muito simples, segundo Kinsey Millhone, personagem da escritora Sue Grafton:
– Se esse tipo de calçado fosse tão maravilhoso assim, os homens estariam usando."

"Advertência de Isaac Asimov:
–  Sua liberdade de fumar termina onde começam meus pulmões."

José Saramago

"Somo os únicos animais cruéis que existem sobre a face da Terra. Todos os animais são violentos, nós também temos que ser violentos porque temos que matar para viver, temos que matar animais se queremos viver, ou plantas, que também são seres vivos, agora, nenhum animal tortura outro animal, e o ser humano tortura outro ser humano. Diga-se para que é que serve a razão numa situação dessas. Parece que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem." (entrevista de José Saramago ao programa Roda Viva - 1997)

A Viagem do Elefante - José Saramago

“Não sei, meu senhor, se este será o melhor tempo de ir para o céu, Que quer isso dizer, Vem aí a inquisição, meu senhor...”

“Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades.”

“Se a espontaneidade falta, falta tudo.”

“A mim deram-me uma besuntadela de cristianismo e batizado sou, mas talvez ainda se perceba o que está por baixo.”

“Quando o cérebro divaga, quando nos arrebata nas asas do devaneio, nem damos pelas distâncias percorridas, sobretudo quando os pés que nos levam não são os nossos.”

“De uma maneira ou de outra, dizia o sábio eremita dos Alpes, sempre teremos de morrer.”

“Como já deveríamos saber, a representação mais exata, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.”

José Saramago

"O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal." (caderno.josesaramago.org)

Caim - José Saramago

“Foi esta a última vez que o senhor olhou uma obra sua e achou que estava bem.”

“Faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem...”

“Pode ser que a minha verdade seja para ti mentira...”

“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.”

“Sinto que o que me acontece deve ter um significado, um sentido qualquer, sinto que não devo parar a meio do caminho sem descobrir do que se trata...”

"Não sei se fui escolhido, mas algo sei sim, Quê, Que o nosso deus, o criador do céu e da terra, está rematadamente louco."

“Já basta que a mente humana crie e recrie aquilo em que obscuramente acredita.”

Ensaio Sobre a Lucidez - José Saramago

"Os humanos são universalmente conhecidos como os únicos animais capazes de mentir, sendo certo que se às vezes o fazem por medo, e às vezes por interesse, também às vezes o fazem porque perceberam a tempo que essa era a única maneira ao seu alcance de defenderem a verdade.”

"Talvez, antes de ti, o teu corpo saiba já que vão te matar."

"A isto pode ser reduzida a tão badalada suprema dignidade da pessoa humana, afinal tanto como um papel molhado."

"Em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trêmula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo."

"Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos..."

"Sentiu a nostalgia da capital, do tempo feliz em que os votos eram obedientes ao mando, do monótono passar das horas e dos dias entre a pequeno-burguesa residência oficial dos chefes de governo e o parlamento da nação, das agitadas e não raras vezes joviais crises políticas que eram como fogachos de duração prevista e intensidade vigiada, quase sempre a fazer de conta, e com as quais se aprendia, não só a não dizer a verdade como fazê-la coincidir, ponto por ponto, quando fosse útil, com a mentira, da mesma maneira que o avesso, com toda a naturalidade é o outro lado do direito."

"O incompreensível pode ser desprezado, mas nunca o será se houver maneira de o usarem como pretexto."

"Que monstruosas coisas é capaz de gerar o cérebro..."

"As verdades há que repeti-las muitas vezes para que não venham, pobres delas, a cair no esquecimento."

"O cão tinha se aproximado quase a tocar com o focinho os joelhos do comissário. Olhava para ele e os seus olhos diziam, Não te faço mal, não tenhas medo, ela também não o teve naquele dia. Então o comissário estendeu a mão devagar e tocou-lhe na cabeça. Apetecia-lhe chorar, deixar que as lágrimas lhe escorregassem pela cara abaixo, talvez o prodígio se repetisse. A mulher do médico guardou o livro na bolsa e disse, Vamos, Aonde, perguntou o comissário, Almoçará conosco se não tem nada mais importante que fazer, Tem a certeza, De quê, De querer sentar-me à sua mesa, Sim, tenho a certeza, E não tem medo de que eu esteja a enganá-la, Com essas lágrimas nos olhos, não."

"Aprendi neste ofício que os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão."

"Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim."

"Há que ter o máximo de cuidado com aquilo que se julga saber, porque por detrás se encontra escondida uma cadeia interminável de incógnitas, a última das quais, provavelmente, não terá solução."

A Jangada de Pedra - José Saramago

"Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira..."

"Os olhos olham, e por verem tão pouco, procuram o que deve estar faltando e não encontram."

"Era tempo de deixar o passado entregue à sua inquieta paz."

"Esse é um dos efeitos do tempo, apagar."

"De que adiantaria falar de motivos, às vezes basta um só, outras vezes nem juntando todos, se as vidas de cada um de vocês não vos ensinaram isto, coitados, e digo vidas, não vida, porque temos várias, felizmente vão-se matando umas às outras, senão não poderíamos viver."

"Os vi como pessoas separadas da lógica aparente do mundo, e assim precisamente me sinto eu."

"Talvez lhe chegue o dia, se estiver com atenção à oportunidade."

"É bem certo que as palavras nunca estão à altura da grandeza dos momentos."

"Seria muito interessante, além de educativo, sermos uma vez por outra espectadores de nós próprios, provavelmente não gostaríamos."

"Aqui o que se ouve é o silêncio, ninguém deveria morrer antes de conhecê-lo, o silêncio, ouviste-o, podes ir, já sabes como é."

"As energias voltam sempre quando a esperança volta."

"É para isso que o silêncio verdadeiramente serve, para que possamos ouvir o que se diz não ter importância."

"Limitara-se a perguntar, quem julgue que isso é o mais fácil está muito enganado, não tem conta o número de respostas que só está à espera das perguntas."

"O mundo está cheio de coincidências, e se uma certa coisa não coincide com outra que lhe esteja próxima, não neguemos por isso as coincidências, só quer dizer que a coisa coincidente não está à vista."

José Saramago

"A questão é que, ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global." (caderno.josesaramago.org)

O Conto da Ilha Desconhecida - José Saramago

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."

O Homem Duplicado - José Saramago

“Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente.”

“O que sucede é que tudo me cansa e aborrece, esta maldita rotina, esta repetição, este marcar passo, Distraia-se, homem, distrair-se sempre foi o melhor remédio, Dê-me licença que lhe diga que distrair-se é o remédio de quem não precisa dele...”

“Não se pode exigir a toda a gente que seja sensata, Por isso o mundo está como está.”

“Estar de acordo nem sempre significa compartilhar uma razão.”

“Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.”

“Talvez rejeição não seja a palavra mais apropriada, o caracol não rejeita o dedo que lhe toca, encolhe-se, Será a maneira que ele tem de rejeitar, Será, No entanto, você, à vista desarmada, não tem nada de caracol, Às vezes penso que nos parecemos muito, Quem, você e eu, Não, eu e o caracol...”

"O senso comum é demasiado comum para ser senso.”

“De fato, nunca se sabe muito bem para que servem as vitórias, suspirou o professor de matemática, Mas as derrotas sabe-se muito bem para que servem.”

“É de todos conhecidos, porém, que a enorme carga de tradição, hábitos e costumes que ocupa a maior parte do nosso cérebro lastram sem piedade as idéias mais brilhantes e inovadoras de que a parte restante ainda é capaz...”

“Pensa nas contradições da vida, no fato de que para ganhar uma batalha às vezes possa ser necessário perdê-la...”

“A vida tem me ensinado que nenhuma coisa é simples, que só às vezes o parece, e que é justamente quando mais o parecer que mais nos convirá duvidar.”

“É tanto o que temos para dizer quando nos calamos...”

“Pensava que o pior de todos os muros é uma porta de que nunca se tem a chave, e ele não sabia onde a encontrar, nem sabia sequer se tal chave existia.”

Todos os Nomes - José Saramago

“Lá embaixo, a nenhum dos seus colegas de categoria, dos superiores nem vale a pena falar, passava pela cabeça a idéia de levantar os olhos para ver se o trabalho lhe estava a correr bem. Dar por entendido que sim era uma outra maneira de justificar a indiferença.”

“Mas é por demais sabido que o espírito humano, muitas vezes, toma decisões cujas causas mostra não conhecer, sendo de supor que o faz depois de ter percorrido os caminhos da mente com tal velocidade que depois não é capaz de os reconhecer e muito menos reencontrar.”

“Só deuses mortos são deuses sempre.”

“Depois, com um sentimento de confiança em si mesmo que nunca havia experimentado em toda a vida, passeou o foco da lanterna em redor, como se estivesse enfim a tomar posse de algo que sempre lhe havia pertencido, mas que só agora tinha podido reconhecer como seu.”

“Deve haver na minha cabeça, e seguramente na cabeça de toda a gente, um pensamento autônomo que pensa por sua própria conta, que decide sem a participação do outro pensamento, aquele que conhecemos desde que nos conhecemos e que tratamos por tu, aquele que se deixa guiar por nós para nos levar aonde cremos que conscientemente queremos ir, mas que, afinal de contas, poderá ser que esteja a ser conduzido por outro caminho, noutra direção, e não para a esquina mais próxima...”

“É preciso andar muito para alcançar o que está perto.”

“Há que se contar sempre com as puras casualidades, ajudam muito.”

“Para anunciar o começo de algo, fala-se sempre do dia primeiro, quando a primeira noite é que deveria contar, ela é que é a condição do dia.”

“O tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda gente.”

“Mas insisto em que me explique porque demorou tanto a dar-me esta direção, A razão é muito simples, não tenho ninguém com quem falar. O Sr. José olhou a mulher, ela estava a olha-lo a ele, não vale a pena gastar palavras a explicar a expressão que tinham nos olhos um e outro, só importa o que ele foi capaz de dizer ao cabo de um silêncio, Eu também não.”

“O diálogo fora difícil, com alçapões e portas falsas surgindo a cada passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo, aquelas que parecem ter um sentido só, com elas que é preciso ter mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa...”

“Estariam lá pessoas curiosas que lhe perguntariam se tinha perdido alguma coisa de valor no desastre, e ele responderia que sim, Uns papéis, e elas tornariam a perguntar, Ações, Obrigações, Títulos de crédito, é só no que pensa a gente comum e sem horizontes de espírito, os seus pensamentos vão todos para os interesses e ganhos materiais, e ele tornaria a dizer que sim, mas dando mentalmente significados diferentes àquelas palavras, seriam as ações que cometera, as obrigações que assumira e os títulos de crédito que ganhara.”

“...e aventurar-se sozinho no meio duma negra noite, por estas catacumbas da humanidade dentro, cercado de nomes, ouvindo o sussurrar dos papéis, ou um murmúrio de vozes, quem os poderá distinguir.”

“Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisso, transporta todo o tempo de um lado para o outro uma escuridão, e isso não te assusta (...) meu caro, tens que aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro...”

“As velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de que estamos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós, Quem será este que está a olhar para mim com cara de pena, diria.”

A Caverna - José Saramago

“E agora queria recuperar o tempo perdido, palavras estas insensatas, entre as que mais o forem, expressão absurda com a qual supomos enganar a dura realidade de que nenhum tempo perdido é recuperável, como se acreditássemos, ao contrário dessa verdade, que o tempo que críamos para sempre perdido teria, afinal, resolvido ficar parado lá atrás, esperando com a paciência de quem dispõe o tempo todo, que déssemos pela falta dele.”

“Era um despropósito, um disparate, preocupar-se com algo que não tem existência na realidade, sim, era certo, nunca tinha pensado nisso antes, de fato, os números não existem na realidade, às coisas é indiferente o número que lhes damos, tanto faz dizermos delas que são o treze ou o quarenta e quatro, o mínimo que se pode concluir é que não tomam conhecimento do lugar em que calhou ficarem. As pessoas não são coisas, as pessoas querem estar sempre nos primeiros lugares, pensou o oleiro, e não só querem estar neles, como querem que se diga e os demais o notem.”

“Saberíamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicássemos a estudar com afinco suas contradições em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerências, que estas tem obrigação de explicar-se por si mesmas.”

“É enquanto estamos vivos que podemos falar da morte, não depois.”

“A vida é assim, está cheia de palavras que não valem a pena, ou que valeram e já não valem, cada uma que formos dizendo tirará o lugar de outra mais merecedora, que o seria não tanto por si mesma, mas pelas conseqüências de tê-la dito.”

“Duas fraquezas não fazem uma fraqueza maior, fazem uma nova força.”

“Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.”

“Há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa (...) A não ser que estes tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar.”

“Se te espetam uma faca na barriga, ao menos tenham a decência moral de te mostrar uma cara conforme a ação assassina, uma cara que ressumbre ódio e ferocidade, uma cara de furor demente, até mesmo de frieza desumana, mas, por amor de Deus, que não te sorriam enquanto estiverem a rasgar as tripas, que não te desprezem a esse ponto extremo, que não te dêem esperanças falsas, dizendo por exemplo, Não se preocupe, isto não é nada, com meia dúzia de pontos ficará fino como antes...”

“Respondeu que falar-lhe dos pensamentos que tinha seria como chover no molhado, porque ela os conhecia tão bem ou melhor do que ele próprio, não palavra por palavra, claro está, como o registro de um gravador, mas no mais profundo e essencial, e então ela disse que, em sua humilde opinião, a realidade era precisamente ao contrário, que de essencial e profundo nada sabia e que muitas das palavras que lhe ouvira não passavam de cortinas de fumo, circunstância por outro lado nada estranhável porque as palavras, muitas vezes, só para isso servem, mas há pior ainda, que é quando elas se calam de todo e se convertem num muro de silêncio compacto, diante desse muro não sabe uma pessoa o que há de fazer.”

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago

“O Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um é somente a ausência do outro.”

“Nada começa que não tenha que acabar, tudo o que começa nasce do que acabou.”

“Uma ausência exterior, como se o mundo, de um momento para outro, se tivesse apagado ou posto à distância.”

“O seu pensar não foi assim tão claro, o pensamento, afinal de contas, já por outros, ou o mesmo, foi dito, é como um grosso novelo de fio enrolado sobre si mesmo, frouxo nuns pontos, noutros apertado até a sufocação e ao estrangulamento, está aqui, dentro da cabeça, mas é impossível conhecer-lhe a extensão toda, seria preciso desenrolá-lo, estendê-lo, e finalmente medi-lo, mas isto, por mais que se intente, ou finja intentar, parece que não o pode fazer o próprio sem ajudas, alguém tem que vir um dia dizer por onde se deve cortar o cordão que liga o homem ao seu umbigo, atar o pensamento à sua causa.”

“O espelho e o sonho são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.”

“Sentindo-se a cada momento prestes a abandonar o mundo, como se estivesse suspensa de um fio delgado que fosse seu último pensamento, um puro pensar sem objetos nem palavras, apenas saber que se está pensando, e não poder saber em quê e para que fim.”

“Cada um de nós é este pouco e este muito, esta bondade e esta maldade, esta paz e esta guerra, revolta e mansidão.”

“Quem és tu, que comigo te pareces, mas a quem não sei reconhecer (...) o certo é que um silêncio como este, quando fixamente olhamos a chama de uma fogueira e calamos, se quisermos traduzi-lo em palavras, não há outras senão aquelas, e dizem tudo.”

“A José quase apetece travar o passo para chegar atrasado aos problemas que o esperam.”

“Deserto é tudo quanto esteja ausente dos homens, ainda que não devamos esquecer que não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões.”

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por este mesmo e único motivo.”

“Então, já não chorava, mas seus olhos nunca mais voltarão a estar secos, que este é o choro que não tem remédio, aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces.”

“Passavam e não acabavam de passar, tal uma serpente de que não vemos nem a cabeça nem o rabo e que ao mover-se é como se não tivesse fim, entra-nos no coração o medo, assim eram aquelas tropas marchando atrás de um morto, mas também em direção à sua própria morte, aquela de cada um, que mesmo quando parece demorar-se sempre acaba por bater-nos à porta, São horas, diz ela, pontual, sem diferença, tanto faz com reis ou com escravos...”

“O dia de amanhã não se sabe a quem pertence, há quem diga que a Deus, é uma hipótese tão boa como a outra, a de não pertencer a ninguém, e tudo isso, ontem, hoje e amanhã, não serem mais do que diferentes nomes da ilusão.”

“Não tens que levar contigo toda a culpa, e, no segredo do seu coração, quiçá ouse perguntar, Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens.”

“O carpinteiro levantou os olhos para as três grandes pedras que, lá no alto, juntas como gomos de um fruto, pareciam estar esperando que do céu e da terra lhes chegasse a resposta às perguntas que lhes fazem todos os seres e coisas, apenas por existirem, ainda que não as pronunciem, Por que estou aqui, Que razão conhecida ou ignorada me explica.”

“Branco sangue que é a lágrima.”

“Talvez os homens nasçam com a verdade dentro de si e só não a digam porque não acreditam que ela seja verdade.”

“A ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança.”

“Não vejamos sempre, nós homens, as mesmas coisas da mesma maneira, o que aliás, tem se mostrado excelente para a sobrevivência e relativa sanidade mental da espécie.”

“A força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido.”

“O medo comum é assim, une facilmente as diferenças.”

"A história de Deus não é toda divina."

“É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.”

“Sendo Deus, tens de saber tudo, Até um certo ponto, só até certo ponto, Que ponto, O ponto em que começa a ser interessante fazer de conta que ignoro.”

"Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez."

As Intermitências da Morte - José Saramago

“A Igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-las a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o princípio que nós não temos feito outra coisa que contradizer a realidade, e aqui estamos.”

“A Igreja nunca se lhe pediu que explicasse, fosse o que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso.”

“Os delegados das religiões não se deram ao incômodo de protestar. Pelo contrário, um deles, conceituado integrante do setor católico, disse Tem razão senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O Paraíso, Paraíso ou inferno, ou coisa nenhuma, o que se passa depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atrativa a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta.”

“É assim a vida, vai dando com uma mão até o dia em que tira tudo com a outra.”

“Cada um de nós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertence-lhe.”

“Se não voltarmos a morrer não temos futuro.”

“Momentos de fraqueza na vida qualquer um os poderá ter e, se hoje passamos sem eles, tenhamo-los por certos amanhã.”