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Felicidade clandestina - Clarice Lispector

"Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo."

"Ser leal é ser desleal para com todo o resto."

"Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma."

"Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir, era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros."

A paixão segundo G. H. - Clarice Lispector

"Minha pergunta, se havia, não era: 'que sou', mas 'entre quais eu sou'. Meu ciclo era completo: o que eu vivia no presente já se condicionava para que eu pudesse posteriormente me entender. Um olho vigiava minha vida. A esse olho ora provavelmente eu chamava de verdade, ora de moral, ora de lei humana, ora de Deus, ora de mim. Eu vivia mais dentro de um espelho. Dois minutos depois de nascer eu já havia perdido as minhas origens."

"A hora de viver era um ininterrupto lento rangido de portas que se abrem continuamente de par em par. Dois portões se abriam e nunca tinham parado de se abrir. Mas abriam-se continuamente para – para o nada?"

"Perder-se é um achar-se perigoso."

"A verdade não pode ser má. A verdade é o que é."

"E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível – minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)"

A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector

“Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio.”

“Faze com que ele sinta que a morte não existe porque já estamos na eternidade... (…) faze com que ele receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la...”

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam.”

“Quero ser anônima e íntima. Quero falar sem falar, se é possível. (…) É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.”

“Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são 'muito humanas' está me cansando. Em geral esse 'humano' está querendo dizer 'bonzinho', 'afável', senão meloso.”

“Estou cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.”

“A verdade do mundo é impalpável.”

“Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro.”

“Como o ser humano um dia fez uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos.”

“Palavras de uma amiga. 'Fortifica o que de melhor tiveres em ti. Não prestes atenção à opinião alheia. Faze de ti mesma e de teu próprio Eu o teu mestre. Quando ele estiver bastante fortalecido, despertará e coisas jamais sonhadas te serão reveladas.”

“Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal.”

“É preciso também não perdoar. (…) A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo.”

“É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre arbítrio.”

"Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?”

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.”

“Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara.”

“Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas alguma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa.”

“Thoreau , por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas ‘melhore o momento presente’, exclamava. E acrescentava: ‘Estamos vivos agora’. E comentava com desgosto: ‘Eles estão juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar’. A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo dia de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome uma providência agora, pois só nas sequências dos agoras é que você existe.”

“Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez usada entenderá o que quero dizer.”

“– Tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam deprimidas, e não sabem o que perdem.
Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.”

“Gafe é a hora em que certa realidade se revela.”

“Quem sabe, se fingissem menos naturalidade, ficassem mais naturais.”

“A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos.”

“Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade e liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.”

“Estava permanentemente ocupada em querer e não quer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia; ter nascido era cheio de erros a corrigir.”

“Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre.”

“De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.”

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente."

“Perguntei-lhe se já experimentara sentir-se em solidão ou se sua vida tinha sempre esse brilho justificável. Eu aconselhei que de vez em quando ficasse sozinho, senão seria submergido, pois até o amor excessivo dos outros podia submergir uma pessoa. Ele concordou, e disse que sempre que podia dava suas retiradas.”

“Há os que já têm o LSD em si, sem precisar tomá-lo.”

“Ele disse: não chore, que chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva de que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco.”

“Antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado.”

“Ter nascido me estragou a saúde.”

“Eu sei de muito pouco. Mas tenho ao meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos.”

“Precisará compreender que é frequentemente tão importante quebrar um bom hábito como quebrar um mau. Todos os hábito são suspeitos.”

“Às vezes me enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta.”

“E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei.”

“Era profundamente derrotado pelo mundo em que vivia. E separara-se das pessoas pela sua derrota e por sentir que os outros também eram derrotados. Ele não queria fazer parte de um mundo onde, por exemplo, o rico devorava o pobre. Como parecia-lhe um movimento apenas romântico, o seu, se se agregasse aos que lutavam contra o esmagamento da vida como esta era, então fechou-se numa individualização que, se não tomasse cuidado, podia se transformar em solidão histérica ou meramente contemplativa. Enquanto não viesse algo melhor, procurava relacionar-se com os outros derrotados por intermédio de uma espécie de amor torto, que atingia tanto os outros como, de algum modo, a si próprio.”

“Creio mesmo que um dia vou estourar de lucidez, isto é, ficar louco.” (Millôr Fernandes)

“Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. E a esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer.”

Os Melhores Contos - Clarice Lispector

“E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes, eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força.” (Uma Ira)

“Se ele se quebrar, pensam que morreu? Não, foi simplesmente embora de si mesmo.” (O Relatório da Coisa)

“Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?).” (Literatura e Justiça)

“É preciso ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar.” (Tempestade de Almas)

“Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.” (Tanta Mansidão)

“O que me agradaria dizer-lhe é que você um dia terá o que agora procura tão confusamente. É uma espécie de calma que vem do conhecimento de si própria e dos outros. Mas não se pode apressar a vinda desse estado. Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento.” (Gertrudes Pede um Conselho)

“Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.” (As Águas do Mar)

“Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada.” (Perdoando Deus)

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente.” (Perdoando Deus)

Cartas Perto do Coração - Clarice Lispector, Fernando Sabino

“Passo os dias procurando enganar minha angústia e procurando não fazer horror a mim mesma.”

“Mas não sei aprender ainda a desistir e tenho mesmo medo de desistir e me entregar porque não sei o que virá daí. Até agora eu mesma me ergui sempre mas é um esforço muito grande e naturalmente estou bem cansada. Esta vida íntima que chega a um ponto de não ter nenhum sinal exterior, termina por me tirar a direção e o sentido das coisas. Mas parece que cheguei a um ponto de onde não posso mais sair.”

“A solidão de que sempre precisei é ao mesmo tempo inteiramente insuportável.”

“A verdade é que estamos sozinhos, cada um consigo mesmo.”

“Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito, mas sofrendo bem: é uma diferença bem importante. (...) A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo.”

“– Tive um verdadeiro cansaço em Paris de gente inteligente. Não se pode ir a um teatro sem precisar dizer se gostou ou não, e porque sim e porque não. Aprendi a dizer ‘não sei’, que é um orgulho, uma defesa e um mau hábito porque termina-se mesmo não querendo pensar, além de não querendo dizer.”

“Sempre penso, com muita estranheza aliás, que talvez a vida seja a morte e quando a gente morre, acorda e vive, com medo de morrer, quer dizer, de tornar a viver.”

“Há um edifício aqui que, anunciam, vai cair, e o mundo, embora ninguém anuncie, também vai cair.”

“Chove muito, chove inesperadamente e, melhor, muitas vezes começa a chover no meio da noite. É do que vou sentir saudades daqui.”

“E o tempo se conta mesmo em anos. Deus me livre se fosse em dias. É como crescer ou envelhecer que só se vê em anos. Como é que se pode ver a curva tão larga das coisas se se está tão próximo como é próximo o dia? Pois se às vezes a palavra que falta para completar um pensamento pode levar meia vida para aparecer.”

“O sentimento de grandeza que você acha que está perdendo talvez agora é que você o esteja adquirindo: sua predisposição para ficar calada não é propriamente uma novidade: a novidade é estar aceitando, inclusive o silêncio. É bom isso, dá mais paciência, dá compreensão, dá mais sentido às coisas – e dá grandeza.”

“Está me acontecendo uma coisa tão esquisita: com o tempo passando, me parece que não moro em lugar nenhum, e que nenhum lugar ‘me quer’...”


“Depois te escrevo mais, uma carta realmente, contando coisas, ou não dizendo nada, pelo simples consolo, ainda que à distância, de te saber existente e convivermos.”

A Hora da Estrela - Clarice Lispector

“A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique.”

“Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?”

“É que ‘quem sou eu’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.”

“Cada dia é um dia roubado da morte.”

“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."

“E quando acaricio a cabeça de meu cão – sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.”

“Que os mortos me ajudem a suportar o quase insuportável, já que de nada me valem os vivos.”

“Fatos são pedras duras. Não há como fugir. Fatos são palavras ditas pelo mundo.”

“Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber.”

“A vida é um soco no estômago.”

“A morte é um encontro consigo.”

Água Viva - Clarice Lispector

“A palavra é a minha quarta dimensão.”

“Escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.”

“Inútil querer me classificar. Eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.”

“Vou crescendo com o dia que ao crescer me mata certa vaga esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol.”

“Nesse âmago tenho a estranha impressão de que não pertenço ao gênero humano.”

“E sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever – mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu.”

“E eu tinha resolvido que ia dormir para poder sonhar, estava com saudade das novidades do sonho.”

“Sou uma iniciada sem seita. Ávida do mistério.”

“Ocorreu-me de repente que não é preciso ter ordem para viver. Não há padrão a seguir nem há o próprio padrão: nasço.”

“Quanto à música, depois de tocada, para onde ela vai? Música só tem de concreto o instrumento. Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical. Mas ainda mais atrás há o coração batendo. Assim o mais profundo pensamento é um coração batendo.”

“Lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.”

Clarice Lispector

"Quando é publicado, é como livro morto. Não quero mais saber dele. E quando eu leio, acho ruim, estranho."

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres - Clarice Lispector

“Embora de olho secos, o coração estava molhado.”

“Pareceu-lhe então, meditativa, que não havia homem ou mulher que por acaso não tivesse olhado ao espelho e não se surpreendesse consigo próprio. (...) Ah, então é verdade que eu não imaginei: eu existo.”

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.”

“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta.”

“Então o que chamava de morte a atraía tanto que só podia chamar de valoroso o modo como, por solidariedade e pena dos outros, ainda estava presa ao que chamava de vida.”

“Não entender era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito (...) O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. (...) Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia.”

“Mas existe um grande, o maior obstáculo pra eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.”

“Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços?”

“Estava caindo numa tristeza sem dor. Não era mau. Fazia parte, com certeza. No dia seguinte provavelmente teria alguma alegria, também sem grandes êxtases, só um pouco de alegria, e isso também não era mau.”

“Muitas coisas você só tem se for autodidata, se tiver a coragem de ser. (...) Espero que você tenha a coragem de ser autodidata apesar dos perigos...”

“Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?”

Correspondências - Clarice Lispector

"Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros. Digo isso sem grande amargura."

"É engraçado que pensando bem não há um verdadeiro lugar para se viver. Tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes."

"Sonhei que estava num lugar de cores apagadas, tudo meio dormente, e que eu ia subir uma escadaria imensa, alta, alta. Eu me aproximava para subir e com horror via que a escadaria era apenas pintada - nem pintada, desenhada a lápis com perspectivas certas em claro e escuro, parece que em cima de papel móvel porque havia vento. Nem lhe posso descrever de como comecei a subir e que dificuldade sentia: era uma imagem de escada e eu pisava em degraus desenhados e sem profundidade. Peço-lhe que não faça psicanálises... Acho que a explicação é de que me falta 'realidade'."

"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto der viver qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. (...) é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias."

"Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. (...) para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos."

"Respeite a você mais do que aos outros. Respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver. (...) o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma."

"Levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando – não raciocinando, não meditando – mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta freqüência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição a ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar."

"Meu bem, só não escrevo mais porque sou uma chata, e não por falta de saudade ou por falta de vontade de conversar. Respeite os defeitos de sua amiga."

"Faça menos, e verá mesmo que às vezes a gente pensou que o mundo rodava porque estávamos rodando uma manivela. Como estou meio cansada de “fazer força” e de empurrar, entendo bem você. Felizmente as coisas não dependem assim de nós. Estou cansada de me preocupar... Também queria tirar férias de preocupações."

"Não dá preguiça de cortar a grama dos outros, só dá preguiça quando é a grama de nossa própria casa."

"Eu lhe desejo que você seja conhecida e admirada só por um grupo delicado embora grande de pessoas espalhadas pelo mundo. Desejo-lhe que nunca atinja a cruel popularidade porque esta é ruim e invade a intimidade sagrada do coração da gente."

"Não descuide da pontuação. Pontuação é a respiração da frase. Uma vírgula pode cortar o fôlego. É melhor não abusar de vírgulas. O ponto de interrogação e o de exclamação use-os quando precisar: são válidos. Cuidado com reticências: só as empregue em caso raro. Como depois de um suspiro. Quanto ao ponto e vírgula, ele é um osso atravessado na garganta da frase. Uma minha amiga, com quem falei a respeito da pontuação, acrescentou que ponto e vírgula é o soluço da frase. O travessão é muito bom pra gente se apoiar nele. Agora esqueça tudo o que eu disse."

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector

“E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer.”

“Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles...”

“A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais (...) Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

“Mesmo só em certo ponto do jogo perdia a sensação de que estava mentindo – e tinha medo de não estar presente em todos os seus pensamentos.”

“Ela morreu assim que pôde.”

“Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.”

“Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas inquietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Se desse um grito – imagino já sem lucidez – minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra. Sem viver coisas eu não encontrei a vida, pois? Mas, mesmo assim na solitude branca e limitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. (...) Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”

“Ainda não se cansara de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer. Ela nada esperava. Ela era em si, o próprio fim.”

“Um dia, depois de viver sem tédio muitos iguais, viu-se diferente de si mesma. Estava cansada. Andou de um lado para outro. Ela própria não sabia o que queria. Pôs-se a cantar baixinho, com a boca fechada. Depois cansou-se e passou a pensar em coisas. Mas não o conseguia inteiramente. Dentro de si algo tentava parar. Ficou esperando e nada vinha para ela. Vagarosamente entristeceu de uma tristeza insuficiente e por isso duplamente triste. Continuou a andar por vários dias e seus passos soavam como o cair de folhas mortas no chão. (...) Na verdade ela sempre fora duas, a que sabia ligeiramente que era e a que era mesmo, profundamente.”

“E foi tão corpo que foi puro espírito. Atravessou os acontecimentos e as horas imaterial, esgueirando-se entre eles com a leveza de um instante.”

“As coisas principais assaltavam-na em quaisquer momentos, também nos vazios, enchendo-os de significados.”

"A noite densa e escura foi cortada ao meio, separada em dois blocos negros de sono. Onde estava? Entre os dois pedaços, vendo-os – o que já dormira e o que ainda iria dormir – isolada no sem-tempo e no sem-espaço, num intervalo vazio. Esse trecho seria descontado de seus anos de vida.”

“Às vezes seus passos erravam na direção, pesavam-lhe, as pernas mal se moviam. Mas ela se empurrava, guardava-se para cair mais longe.”

“O silêncio se prolongava à espera do que pudessem dizer. Mas nenhum dos dois descobria no outro o começo de uma palavra. Fundiam-se ambos na quietude.”

"Tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais. (...) cada um com um corpo, empurrando-o para frente, querendo sofregamente vivê-lo."