Os irmãos Karamazov - Fiódor Dostoiévski

"Pode ser verdade que essa arma experimentada e já milenar de transformação moral do homem, que o conduz da escravidão para a liberdade e o aperfeiçoamento moral, possa converter-se em faca de dois gumes, de sorte que em lugar da resignação e do autocontrole definitivo talvez venha a redundar alguma vezes no contrário, no mais satânico orgulho, ou seja, em grilhões, e não em liberdade."

"Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto, passa a desrespeitar a si mesmo e aos demais."

"Existe no povo uma mágoa silenciosa e muito tolerante, que se recolhe em si mesma e cala. Mas há também uma mágoa dorida: esta irrompe às vezes em lágrimas e daí deságua em lamentos."

"A senhora já fez muito, pois conseguiu compreender a si mesma de forma profunda e sincera!"

"E o principal: fuja da mentira, de toda e qualquer mentira, particularmente de mentir para si mesma. Vigie sua mentira, examine-a a toda hora, a cada minuto."

"Nunca consegui entender como se pode amar o próximo. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar. (...) Para amar uma pessoa é preciso que ela esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba."

"De fato, às vezes se fala da crueldade 'bestial' do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. O tigre simplesmente trinca, dilacera, e é só o que sabe fazer. Não lhe passaria pela cabeça pregar as orelhas das pessoas com pregos por uma noite, mesmo que pudesse fazê-lo."

"– Acho que se o diabo não existe e, portanto, o homem o criou, então o criou à sua imagem e semelhança. 
– Neste caso, exatamente como Deus."

"Não existe nada mais sedutor para o homem do que a sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante."

"Que fé é essa que se faz por coação?"

"Este caso repercutiu em toda a Rússia. Entretanto, o que nos deveria surpreender, nos deixar particularmente horrorizados? Justo nós, particularmente nós? Ora, somos gente muito habituada a tudo isso! Nosso horror está justamente no fato de que esses casos sombrios quase já não nos horrorizam mais! Porquanto o que deve nos horrorizar é o nosso hábito e não um delito isolado desse ou daquele indivíduo. Onde estão as causas de nossa indiferença, de nossa atitude quase morna diante de semelhantes casos, de semelhantes bandeiras da época, que nos profetizam um futuro nada invejável? Estariam no nosso cinismo, na exaustão precoce da inteligência e da imaginação de nossa sociedade ainda tão jovem mas tão precocemente caduca? Estariam em nosso princípios morais abalados até os fundamentos ou, enfim, talvez no fato de até carecermos totalmente desses princípios morais?"

"Gostamos de frequentar a sociedade e comunicar imediatamente às pessoas todas as nossas ideias, até as mais infernais e perigosas, gostamos de dividi-las com as pessoas e, sabe-se lá por quê, nos mesmo instante exigimos que essas pessoas logo nos respondam com a mais plena simpatia, compartilhem de todas as nossas preocupações e inquietações, façam coro conosco e não criem obstáculo à nossa verdade. Senão entramos em fúria e destroçamos a taverna inteira."