"É um sentimento amplo, poderoso e fundamental. Uma criança cria amigos imaginários para viver suas fantasias. Dizem que é saudável. Que seres seríamos capazes de inventar para não reconhecer nossa solidão?"
"De todos os antídotos contra a solidão, a leitura é um dos mais criativos. Aqui estamos, eu sozinho ao escrever, e você sozinho ou sozinha ao ler. Aqui, duas solidões se encontram, trocam ideias, pensam e, efeito fascinante, transmutam o estar só em pensar e compartilhar. Só na solidão você é você e só na solidão eu sou eu. Na leitura solitária, somos dois autênticos viajantes isolados que, por um breve instante, aceitam conversar com um estranho fortuito."
"Estamos viciados na poluição sonora que teme ouvir os próprios pensamentos, daí ligar vários aparelhos ao mesmo tempo para abafar os gritos da consciência. Não há como fugir da constatação de que quanto mais consciente for, mais solitário se sentirá."
"Estar sozinho e bem requer maturidade e equilíbrio. Desequilibrados, inseguros e aqueles com vazios impreenchíveis na alma tremem diante da possibilidade de estar sem alguém do lado. Casais com muita vivência e equilibrados podem passar horas sozinhos. Um está ouvindo música, o outro, lendo. Podem passar horas sem se falar. Dias, semanas sem se ver, em viagem para destinos diferentes. Quando estão juntos, todavia, estão um com o outro e um para o outro. Ligam para o outro, conversam, de verdade, com intimidade e cumplicidade. Adélia Prado, em seu poema Casamento, escreve lindamente sobre isso quando nos diz da mulher, que adora tirar as escamas dos peixes pescados pelo marido, junto dele, em silêncio, na cozinha: ‘É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,/ de vez em quando os cotovelos se esbarram,/ ele fala coisas como ‘este foi difícil’/ ‘prateou no ar dando rabadas’/ e faz o gesto com a mão./ O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez/ atravessa a cozinha como um rio profundo.’ O casal fala pouco, mas está efetivamente junto. O texto termina dizendo que ambos deitam como noivo e noiva, após muito silêncio e companheirismo, a solidão do tempo em que um foi pescar e o outro esteve em casa. Trocando em miúdos, o problema não e estarem sozinhos ou o silêncio, é a falta de comunicação, a distância de almas."
"O mundo que nos formou morre antes de nós. Quando nos tornarmos velhos, nossas referências de mundo já caducaram. Alguém com 90 anos ouviu Carmem Miranda na infância. Com quem conversa sobre isso numa festa apenas com pessoas mais jovens?"
A negação da morte - Ernest Becker
"Não há dúvida de que os primitivos celebram com frequência a morte – como Hocart e outros demonstraram – porque acreditam que a morte é a promoção suprema, a última elevação ritual para uma forma de vida superior, para o desfrute da eternidade de alguma forma. A maioria dos ocidentais modernos tem dificuldade em acreditar nisso, o que faz com que o medo da morte tenha um papel muito destacado em nossa configuração psicológica."
"A rivalidade entre irmãos é um problema crítico que reflete a condição humana básica: não é que as crianças sejam maldosas, egoístas ou dominadoras. Elas simplesmente expressam muito abertamente o trágico destino do homem: justificar-se desesperadamente como um objeto de valor primordial no universo, se destacar, ser um herói, dar a maior contribuição possível para a vida no mundo, mostrar que vale mais do que qualquer outra coisa ou pessoa."
"Como disse Aristóteles em algum lugar: sorte é quando o sujeito ao seu lado é atingido pela flecha. (...) É esse narcisismo que faz com que, nas guerras, homens continuem marchando até serem atingidos por tiros a queima-roupa. No fundo do coração, o indivíduo não acha que vai morrer, apenas sente pena daquele que está ao seu lado. A explicação de Freud para isso era de que o inconsciente não conhece a morte ou o tempo: nos seus recessos orgânicos fisioquímicos mais íntimos, o homem se sente imortal."
"O herói era o homem que podia entrar no mundo dos mortos, no mundo espiritual, e voltar vivo. (...) O herói divino de cada um desses cultos era alguém que tinha voltado dos mortos. E como sabemos, hoje, com base na pesquisa de mitos e rituais antigos, o próprio cristianismo era um concorrente dos cultos misteriosos e saiu vencedor – entre outras razões – porque também tinha em destaque um homem que curava, tinha poderes sobrenaturais e havia ressuscitado."
"Os homens primitivos que tinham mais medo eram os mais realistas em relação à sua situação na natureza, e transmitiram aos seus descendentes um realismo valoroso para a sobrevivência. O resultado foi o surgimento do homem tal como o conhecemos: um animal hiperansioso que inventa constantemente razões para a sua ansiedade."
"Um leão deve sentir-se mais certo do que uma gazela de que Deus está do seu lado."
"O que veremos é o que homem molda para si mesmo um mundo governável: ele se lança à ação sem usar de crítica, sem pensar. Aceita a programação ditada pela sua cultura, que lhe diz para onde ele deve olhar."
"Tudo o que o homem faz no seu mundo simbólico é uma tentativa de negar e vencer o seu destino grotesco. O homem literalmente se entrega a um esquecimento cego utilizando-se de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de as situação que se constituem em formas de loucura – loucura admitida pelo consenso, loucura compartilhada, disfarçada e digna, mas ainda assim loucura."
"No mais alto trono do mundo o homem senta-se sobre o traseiro. Em geral, esse epigrama faz as pessoas rirem, porque parece resgatar o mundo do orgulho artificial e o esnobismo e trazer as coisas de volta aos valores igualitários. Mas se nos aprofundarmos nessa observação e dissermos que os homens se sentam não apenas sobre os seus traseiros mas sobre um monte quente e fumegante de seu próprio excremento, a piada já não terá mais graça."
"A grande dádiva da repressão é a de possibilitar ao homem viver decisivamente em um mundo esmagadoramente miraculoso e incompreensível, mundo tão cheio de beleza, majestade e terror que, se os animais o percebessem, ficariam paralisados e sem ação."
"A maior descoberta de Freud, aquela que se acha na raiz da psicodinâmica, é que a grande causa de muita doença psicológica é o medo do autoconhecimento – do conhecimento de nossas emoções, nossos impulsos, nossas recordações, capacidades, potencialidades, nosso destino."
"Há o tipo de homem que tem grande desprezo pela imediação, que tenta cultivar sua interioridade, tenta fundamentar seu sendo de valor pessoal em algo mais profundo e mais interior, criar uma distância entre si mesmo e o homem médio. Kierkegaard chama esse tipo de homem de introvertido. É um homem um tanto mais preocupado com o que significa ser uma pessoa, ter individualidade e singularidade. Gosta da solidão e se retira periodicamente para refletir, talvez para nutrir ideias sobre o seu eu secreto, sobre o que este eu poderia ser. Este, em resumo, é o único problema verdadeiro da vida, a única preocupação humana que vale a pena: qual é o seu verdadeiro talento, seu dom secreto, sua autêntica vocação? De que maneira a pessoa é realmente ímpar, e como pode expressar essa singularidade, dedicá-la a algo que está além de si mesma? Como é que a pessoa pode tomar o seu ser interior privado, o grande mistério que ela sente no seu íntimo, suas emoções, seus anseios, e usá-los para viver mais distintamente, para enriquecer tanto a si mesma quanto a humanidade com a qualidade característica de seu talento? Na adolescência, na maioria de nós lateja esse dilema, e o expressamos com palavras e pensamentos ou com sofrimentos e anseios sufocados. Mas, em geral, a vida nos suga atirando-nos a atividades padronizadas. O sistema social de heróis em que nascemos traça trilhas para o nosso heroísmo, trilhas com as quais nos conformamos, às quais nos moldamos para que possamos agradar aos outros, tornarmo-nos aquilo que os outros esperam que sejamos. E em vez de trabalhar o nosso segredo interior, vamos aos poucos cobrindo-o e esquecendo-o, enquanto nos tornamos homens puramente exteriores, jogando com sucesso o padronizado jogo dos heróis, no qual caímos por acidente, por conexões familiares, por um patriotismo reflexo, ou pela simples necessidade de comer e pela ânsia de procriar. Não estou dizendo que o introvertido de Kierkegaard mantém essa busca interior inteiramente viva e consciente, mas apenas que ela representa um pouco mais do que um problema vagamente consciente, do que representado no caso do homem acordado, tragado pelo ambiente. O introvertido de Kierkegaard sente-se um ser diferenciado no mundo, tem alguma coisa em si mesmo que o mundo não pode refletir, não pode, em sua imediação e superficialidade, apreciar; e por isso esse indivíduo se mantém um tanto afastado do mundo."
"Se não temos a onipotência de um deus, pelo menos podemos destruir como se fôssemos um."
"Uma vez admitido o fato de ser uma criatura que defeca, você convida o oceano primitivo da angústia animal a desaguar sobre você. Mas isso é muito mais do que a angústia da criatura, é também a angústia do homem, a angústia que resulta do paradoxo humano de que o homem é sim um animal, porém cônscio de sua limitação animal. A angústia é o resultado da percepção da verdade da nossa condição. O que significa ser um animal consciente de si mesmo? A ideia é absurda, se não for monstruosa. Significa saber que se é alimento para os vermes."
"Com os seus problemas característicos, o homem é o único animal que pode, muitas vezes de bom grado, abraçar o profundo sono da morte, mesmo sabendo que isso significa o esquecimento."
"O homem normal abocanha da vida aquilo que ele tem condições de mastigar e digerir, e nada mais. Em outras palavras, os homens não são feitos para serem deuses para assimilarem o mundo inteiro; são feitos, como outras criaturas, para assimilar o pedaço de terra que está diante de seus focinhos. Os deuses podem assimilar a totalidade da criação, porque só eles podem entendê-la, saber de que se trata e para que serve. Mas assim que o homem levanta o nariz do chão e começa a farejar problemas eternos, como a vida e a morte, o significado de uma rosa ou um grupo de estrelas – aí ele se complica. A maioria dos homens se poupa dessa complicação, mantendo a mente concentrada nos pequenos problemas de suas vidas, tal como a sociedade em que vivem traça esses problemas para eles. São os que Kierkegaard chamava de homens imediatos e de filisteus. Eles se tranquilizam com o trivial – e assim podem levar vidas normais."
"Não existe um limite entre normal e neurótico, já que todos nós mentimos e estamos comprometidos, de certas maneiras, com a mentira. A neurose é, então, algo de que todos nós partilhamos, ela é universal."
"Afinal, o que devemos pensar de uma criação na qual a atividade rotineira consiste em os organismos despedaçarem os outros com dentes de todos os tipos, mordendo, triturando carne, talos de plantas e ossos entre os molares, empurrando avidamente a pasta goela abaixo, incorporando sua essência à própria organização e depois evacuando o resíduo com mau cheiro e gases? Cada um tentando incorporar outros que lhes sirvam de alimento. Os mosquitos inchando-se de sangue, os gusanos, as abelhas assassinas atacando com fúria e demonismo, tubarões continuando a estraçalhar e engolir enquanto suas próprias entranhas estão sendo arrancadas. Isso para não falar na mutilação e no massacre diário em acidentes naturais de todos os tipos: um terremoto enterra vivos setenta mil corpos no Peru, forma-se uma pirâmide de mais de cinquenta mil carros velhos por ano só nos Estados Unidos, um maremoto leva mais de duzentas e cinquenta mil pessoas no Oceano Índico. A criação é um aterrorizante e grandioso espetáculo que se passa num planeta que vem sendo ensopado, durante centenas de milhões de anos, no sangue de todas as suas criaturas."
"A rivalidade entre irmãos é um problema crítico que reflete a condição humana básica: não é que as crianças sejam maldosas, egoístas ou dominadoras. Elas simplesmente expressam muito abertamente o trágico destino do homem: justificar-se desesperadamente como um objeto de valor primordial no universo, se destacar, ser um herói, dar a maior contribuição possível para a vida no mundo, mostrar que vale mais do que qualquer outra coisa ou pessoa."
"Como disse Aristóteles em algum lugar: sorte é quando o sujeito ao seu lado é atingido pela flecha. (...) É esse narcisismo que faz com que, nas guerras, homens continuem marchando até serem atingidos por tiros a queima-roupa. No fundo do coração, o indivíduo não acha que vai morrer, apenas sente pena daquele que está ao seu lado. A explicação de Freud para isso era de que o inconsciente não conhece a morte ou o tempo: nos seus recessos orgânicos fisioquímicos mais íntimos, o homem se sente imortal."
"O herói era o homem que podia entrar no mundo dos mortos, no mundo espiritual, e voltar vivo. (...) O herói divino de cada um desses cultos era alguém que tinha voltado dos mortos. E como sabemos, hoje, com base na pesquisa de mitos e rituais antigos, o próprio cristianismo era um concorrente dos cultos misteriosos e saiu vencedor – entre outras razões – porque também tinha em destaque um homem que curava, tinha poderes sobrenaturais e havia ressuscitado."
"Os homens primitivos que tinham mais medo eram os mais realistas em relação à sua situação na natureza, e transmitiram aos seus descendentes um realismo valoroso para a sobrevivência. O resultado foi o surgimento do homem tal como o conhecemos: um animal hiperansioso que inventa constantemente razões para a sua ansiedade."
"Um leão deve sentir-se mais certo do que uma gazela de que Deus está do seu lado."
"O que veremos é o que homem molda para si mesmo um mundo governável: ele se lança à ação sem usar de crítica, sem pensar. Aceita a programação ditada pela sua cultura, que lhe diz para onde ele deve olhar."
"Tudo o que o homem faz no seu mundo simbólico é uma tentativa de negar e vencer o seu destino grotesco. O homem literalmente se entrega a um esquecimento cego utilizando-se de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de as situação que se constituem em formas de loucura – loucura admitida pelo consenso, loucura compartilhada, disfarçada e digna, mas ainda assim loucura."
"No mais alto trono do mundo o homem senta-se sobre o traseiro. Em geral, esse epigrama faz as pessoas rirem, porque parece resgatar o mundo do orgulho artificial e o esnobismo e trazer as coisas de volta aos valores igualitários. Mas se nos aprofundarmos nessa observação e dissermos que os homens se sentam não apenas sobre os seus traseiros mas sobre um monte quente e fumegante de seu próprio excremento, a piada já não terá mais graça."
"A grande dádiva da repressão é a de possibilitar ao homem viver decisivamente em um mundo esmagadoramente miraculoso e incompreensível, mundo tão cheio de beleza, majestade e terror que, se os animais o percebessem, ficariam paralisados e sem ação."
"A maior descoberta de Freud, aquela que se acha na raiz da psicodinâmica, é que a grande causa de muita doença psicológica é o medo do autoconhecimento – do conhecimento de nossas emoções, nossos impulsos, nossas recordações, capacidades, potencialidades, nosso destino."
"Há o tipo de homem que tem grande desprezo pela imediação, que tenta cultivar sua interioridade, tenta fundamentar seu sendo de valor pessoal em algo mais profundo e mais interior, criar uma distância entre si mesmo e o homem médio. Kierkegaard chama esse tipo de homem de introvertido. É um homem um tanto mais preocupado com o que significa ser uma pessoa, ter individualidade e singularidade. Gosta da solidão e se retira periodicamente para refletir, talvez para nutrir ideias sobre o seu eu secreto, sobre o que este eu poderia ser. Este, em resumo, é o único problema verdadeiro da vida, a única preocupação humana que vale a pena: qual é o seu verdadeiro talento, seu dom secreto, sua autêntica vocação? De que maneira a pessoa é realmente ímpar, e como pode expressar essa singularidade, dedicá-la a algo que está além de si mesma? Como é que a pessoa pode tomar o seu ser interior privado, o grande mistério que ela sente no seu íntimo, suas emoções, seus anseios, e usá-los para viver mais distintamente, para enriquecer tanto a si mesma quanto a humanidade com a qualidade característica de seu talento? Na adolescência, na maioria de nós lateja esse dilema, e o expressamos com palavras e pensamentos ou com sofrimentos e anseios sufocados. Mas, em geral, a vida nos suga atirando-nos a atividades padronizadas. O sistema social de heróis em que nascemos traça trilhas para o nosso heroísmo, trilhas com as quais nos conformamos, às quais nos moldamos para que possamos agradar aos outros, tornarmo-nos aquilo que os outros esperam que sejamos. E em vez de trabalhar o nosso segredo interior, vamos aos poucos cobrindo-o e esquecendo-o, enquanto nos tornamos homens puramente exteriores, jogando com sucesso o padronizado jogo dos heróis, no qual caímos por acidente, por conexões familiares, por um patriotismo reflexo, ou pela simples necessidade de comer e pela ânsia de procriar. Não estou dizendo que o introvertido de Kierkegaard mantém essa busca interior inteiramente viva e consciente, mas apenas que ela representa um pouco mais do que um problema vagamente consciente, do que representado no caso do homem acordado, tragado pelo ambiente. O introvertido de Kierkegaard sente-se um ser diferenciado no mundo, tem alguma coisa em si mesmo que o mundo não pode refletir, não pode, em sua imediação e superficialidade, apreciar; e por isso esse indivíduo se mantém um tanto afastado do mundo."
"Se não temos a onipotência de um deus, pelo menos podemos destruir como se fôssemos um."
"Uma vez admitido o fato de ser uma criatura que defeca, você convida o oceano primitivo da angústia animal a desaguar sobre você. Mas isso é muito mais do que a angústia da criatura, é também a angústia do homem, a angústia que resulta do paradoxo humano de que o homem é sim um animal, porém cônscio de sua limitação animal. A angústia é o resultado da percepção da verdade da nossa condição. O que significa ser um animal consciente de si mesmo? A ideia é absurda, se não for monstruosa. Significa saber que se é alimento para os vermes."
"Com os seus problemas característicos, o homem é o único animal que pode, muitas vezes de bom grado, abraçar o profundo sono da morte, mesmo sabendo que isso significa o esquecimento."
"O homem normal abocanha da vida aquilo que ele tem condições de mastigar e digerir, e nada mais. Em outras palavras, os homens não são feitos para serem deuses para assimilarem o mundo inteiro; são feitos, como outras criaturas, para assimilar o pedaço de terra que está diante de seus focinhos. Os deuses podem assimilar a totalidade da criação, porque só eles podem entendê-la, saber de que se trata e para que serve. Mas assim que o homem levanta o nariz do chão e começa a farejar problemas eternos, como a vida e a morte, o significado de uma rosa ou um grupo de estrelas – aí ele se complica. A maioria dos homens se poupa dessa complicação, mantendo a mente concentrada nos pequenos problemas de suas vidas, tal como a sociedade em que vivem traça esses problemas para eles. São os que Kierkegaard chamava de homens imediatos e de filisteus. Eles se tranquilizam com o trivial – e assim podem levar vidas normais."
"Não existe um limite entre normal e neurótico, já que todos nós mentimos e estamos comprometidos, de certas maneiras, com a mentira. A neurose é, então, algo de que todos nós partilhamos, ela é universal."
"Afinal, o que devemos pensar de uma criação na qual a atividade rotineira consiste em os organismos despedaçarem os outros com dentes de todos os tipos, mordendo, triturando carne, talos de plantas e ossos entre os molares, empurrando avidamente a pasta goela abaixo, incorporando sua essência à própria organização e depois evacuando o resíduo com mau cheiro e gases? Cada um tentando incorporar outros que lhes sirvam de alimento. Os mosquitos inchando-se de sangue, os gusanos, as abelhas assassinas atacando com fúria e demonismo, tubarões continuando a estraçalhar e engolir enquanto suas próprias entranhas estão sendo arrancadas. Isso para não falar na mutilação e no massacre diário em acidentes naturais de todos os tipos: um terremoto enterra vivos setenta mil corpos no Peru, forma-se uma pirâmide de mais de cinquenta mil carros velhos por ano só nos Estados Unidos, um maremoto leva mais de duzentas e cinquenta mil pessoas no Oceano Índico. A criação é um aterrorizante e grandioso espetáculo que se passa num planeta que vem sendo ensopado, durante centenas de milhões de anos, no sangue de todas as suas criaturas."
Lições do Caminho - Igor Teo
"O desejo condiciona nossa visão. Enxergamos o mundo a partir das lentes do que queremos ver. Nomeamos as coisas a partir do que queremos chamar. Conhecer nossos desejos é o primeiro passo para conhecer o caminho que trilhamos."
"O mestre de si, no entanto, conquista antes a sua própria mente. Compreende aquilo que deseja, mas não permite que o desejo consuma a si próprio."
"O bom viajante compreende que não há fim no caminho. Não há perfeição nele. Mas isto não o impede de caminhar. Ele conhece os prazeres do caminho, e entende que o próprio caminhar define o caminho, e não seu suposto destino final."
"Por vezes, nos deparamos com o sentimento de vazio. Ele reflete a própria verdade da vida: a ausência de um sentido último para as coisas. Mas antes de nos sentirmos tristes por isso, o que devemos lembrar é que a vida é uma folha em branca, pronta para ser escrita. Se não fosse branca, não haveria nada a escrever, nada novo, nada livre para ser feito. É porque ela não está já escrita, é porque ela é vazia, que podemos preenchê-la com nossa forma de viver"
"Aprender a morrer é se libertar da morte."
"No caminho para tornar-se mestre de si, o homem deve se encontrar muitas vezes com a parte escura de si mesmo. Aquilo que ele preferia esconder, que vê como vergonhoso ou mal."
"Vivemos em tempos que a felicidade não é colocada como uma experiência possível da vida, e sim como uma obrigação. Ser feliz, mostrar felicidade, estar sempre alegre e animado aparece como uma obrigação social, excluindo o espaço para a tristeza, a interiorização e a reflexão. A obrigação em alcançar essa estranha felicidade apenas aumenta o número de infelizes."
"Aquele que encontra seu desejo, descobre o caminho. Aquele que sabe lidar com seu desejo, encontra o caminho para o contentamento."
"Quem busca conhecimento, aprende algo novo a cada dia. Quem busca o caminho, desaprende algo a cada dia. Na vida, muitas vezes possuímos certas ideias preconcebidas de como as coisas devem ser. Acreditamos que aprender é como construir um edifício, onde sempre se acrescenta um andar. Como se sempre fosse uma operação de acréscimo. Ao trilhar o caminho, no entanto, o homem descobre que muitas vezes é o contrário que deve ser feito. Isto é, se despir de certas ideias, retirar aquilo que lhe foi colocado pela vida, para então poder viver de forma plena. (...) Assim procede o mestre de si, retirando de si um pouco mais a cada vez. A tarefa de autoconhecimento não é um acumulo de mais saber, mas se despir dos excessos para descobrir que, ao fim, nada resta além do próprio caminho."
"O mestre de si, no entanto, conquista antes a sua própria mente. Compreende aquilo que deseja, mas não permite que o desejo consuma a si próprio."
"O bom viajante compreende que não há fim no caminho. Não há perfeição nele. Mas isto não o impede de caminhar. Ele conhece os prazeres do caminho, e entende que o próprio caminhar define o caminho, e não seu suposto destino final."
"Por vezes, nos deparamos com o sentimento de vazio. Ele reflete a própria verdade da vida: a ausência de um sentido último para as coisas. Mas antes de nos sentirmos tristes por isso, o que devemos lembrar é que a vida é uma folha em branca, pronta para ser escrita. Se não fosse branca, não haveria nada a escrever, nada novo, nada livre para ser feito. É porque ela não está já escrita, é porque ela é vazia, que podemos preenchê-la com nossa forma de viver"
"Aprender a morrer é se libertar da morte."
"No caminho para tornar-se mestre de si, o homem deve se encontrar muitas vezes com a parte escura de si mesmo. Aquilo que ele preferia esconder, que vê como vergonhoso ou mal."
"Vivemos em tempos que a felicidade não é colocada como uma experiência possível da vida, e sim como uma obrigação. Ser feliz, mostrar felicidade, estar sempre alegre e animado aparece como uma obrigação social, excluindo o espaço para a tristeza, a interiorização e a reflexão. A obrigação em alcançar essa estranha felicidade apenas aumenta o número de infelizes."
"Aquele que encontra seu desejo, descobre o caminho. Aquele que sabe lidar com seu desejo, encontra o caminho para o contentamento."
"Quem busca conhecimento, aprende algo novo a cada dia. Quem busca o caminho, desaprende algo a cada dia. Na vida, muitas vezes possuímos certas ideias preconcebidas de como as coisas devem ser. Acreditamos que aprender é como construir um edifício, onde sempre se acrescenta um andar. Como se sempre fosse uma operação de acréscimo. Ao trilhar o caminho, no entanto, o homem descobre que muitas vezes é o contrário que deve ser feito. Isto é, se despir de certas ideias, retirar aquilo que lhe foi colocado pela vida, para então poder viver de forma plena. (...) Assim procede o mestre de si, retirando de si um pouco mais a cada vez. A tarefa de autoconhecimento não é um acumulo de mais saber, mas se despir dos excessos para descobrir que, ao fim, nada resta além do próprio caminho."
Fragmento trazido pelo vento
"Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos." (O ano da morte de Ricardo Reis - José Saramago)
Na natureza selvagem - Jon Krakauer
"Parecia um garoto que estava buscando alguma coisa, buscando alguma coisa. Só não sabia o que era."
"Se o dia e a noite são de tal forma que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais brilhante e mais imortal –eis aí o vosso êxito."
"Venho pensando cada vez mais que devo ser sempre um caminhante solitário por natureza. Meu Deus, como a trilha me atrai! Você não pode compreender esse incansável fascínio. Ao cabo de tudo, a trilha solitária é a melhor. (...) Jamais deixarei de vaguear. E quando chegar o momento de morrer, encontrarei o lugar mais selvagem, mais solitário, mais desolado que exista."
"Viver deliberadamente: atenção consciente ao básico da vida e uma atenção constante ao meio ambiente imediato e o que lhe diz respeito, exemplo: um emprego, uma tarefa, um livro, tudo exigindo concentração eficiente."
"Passei por muita coisa na vida e agora penso que encontrei o que é necessário para a felicidade. Uma vida tranquila e isolada no campo, com a possibilidade de ser útil à gente para quem é fácil fazer o bem e que não está acostumada que o façam; depois trabalhar em algo que se espera tenha alguma utilidade; depois, descanso, natureza, livros, música, amor pelo próximo."
"Eu admiro meu corpo, essa matéria a qual estou preso tornou-se tão estranha para mim. Não temo espíritos, fantasmas, dos quais sou um – isso meu corpo pode –, mas temo corpos, tenho medo de encontrá-los."
"Oh, como se deseja às vezes escapar da estupidez sem sentido da eloquência humana, de todas aquelas frases sublimes, pra se refugiar na natureza, aparentemente tão inarticulada, ou na ausência de palavras da labuta longa e pesada, do sono saudável, da verdadeira música, ou de uma compreensão humana tornada muda pela emoção!"
"Se o dia e a noite são de tal forma que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais brilhante e mais imortal –eis aí o vosso êxito."
"Venho pensando cada vez mais que devo ser sempre um caminhante solitário por natureza. Meu Deus, como a trilha me atrai! Você não pode compreender esse incansável fascínio. Ao cabo de tudo, a trilha solitária é a melhor. (...) Jamais deixarei de vaguear. E quando chegar o momento de morrer, encontrarei o lugar mais selvagem, mais solitário, mais desolado que exista."
"Viver deliberadamente: atenção consciente ao básico da vida e uma atenção constante ao meio ambiente imediato e o que lhe diz respeito, exemplo: um emprego, uma tarefa, um livro, tudo exigindo concentração eficiente."
"Passei por muita coisa na vida e agora penso que encontrei o que é necessário para a felicidade. Uma vida tranquila e isolada no campo, com a possibilidade de ser útil à gente para quem é fácil fazer o bem e que não está acostumada que o façam; depois trabalhar em algo que se espera tenha alguma utilidade; depois, descanso, natureza, livros, música, amor pelo próximo."
"Eu admiro meu corpo, essa matéria a qual estou preso tornou-se tão estranha para mim. Não temo espíritos, fantasmas, dos quais sou um – isso meu corpo pode –, mas temo corpos, tenho medo de encontrá-los."
"Oh, como se deseja às vezes escapar da estupidez sem sentido da eloquência humana, de todas aquelas frases sublimes, pra se refugiar na natureza, aparentemente tão inarticulada, ou na ausência de palavras da labuta longa e pesada, do sono saudável, da verdadeira música, ou de uma compreensão humana tornada muda pela emoção!"
Fragmentos trazidos pelo vento
Estou cansado, é claro,
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Fernando Pessoa
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Fernando Pessoa
Por um fio - Drauzio Varella
"Uma hora, o destino exige um sacrifício tão grande para continuarmos vivendo que a gente se cansa: em nome do quê vou passar por isso?"
"Nas limitações ao funcionamento do corpo, as expectativas em relação ao que nos cerca podem mudar radicalmente – o essencial torna-se supérfluo, e vice-versa, numa fração de segundo. Um doente que não consegue se alimentar há uma semana é capaz de chorar de emoção ao engolir três colheradas de sopa de mandioquinha; outro comemora a proeza de andar até o banheiro com a alegria de quem ganhou a maratona de Nova York. Só quem padece de dores contínuas conhece o prazer de passar duas horas sem elas."
"Ao fechar os olhos diante da perda da integridade física do outro, procuramos afastar de nós o desconforto da lembrança de nossa própria efemeridade."
"Vocês, mais moços, não podem ver lágrimas nos olhos dos doentes. Dão as piores notícias e querem vê-los reagir com alegria, como se nada houvesse. Deixa chorar, que man existe? O choro é uma reação exclusiva do cérebro humano, fundamental para descarregar tensões emocionais, acalmar e trazer sabedoria ao espírito para aceitar a realidade."
"Tive vontade de percorrer as faculdades de medicina para dizer aos alunos, no primeiro dia de aula, o que nunca ouvira de meus professores: na medicina, curar é o objetivo secundário, se tanto. A finalidade primordial da nossa profissão é aliviar o sofrimento humano."
"Quanta diferença haveria entre nascer num lugar sem gente pobre como Estocolmo e num bairro operário de São Paulo? Se eu tivesse recebido a mesma educação e fosse tão bonito quanto aquele rapaz, minha vida teria sido mais fácil? Mais feliz?"
"Como não existíamos (portanto, não fomos consultados para vir ao mundo), consideramos a vida uma dádiva da natureza, e nosso corpo, uma entidade construída à imagem e semelhança de Deus, exclusivamente para nos trazer felicidade, atender aos nossos caprichos e nos proporcionar prazer."
"Sempre fui explosivo: brigava no trânsito, xingava os outros, ficava irritado por qualquer bobagem, já acordava chateado sem saber por quê. Quando entendi que podia morrer, pensei: não tem cabimento desperdiçar o resto da vida. Virei Albert Einstein, o defensor da relatividade: quando alguma coisa me desagrada, procuro avaliar que importância ela tem no universo. Descobri que é possível ser feliz até quando estou triste."
"Não aguento mais fazer sala pra visitantes que só falam banalidades! Fraco desse jeito, que interesse posso ter nos gols do centroavante do Palmeiras, no carro novo que o sogro do meu vizinho comprou ou nas gracinhas do gato angorá da minha cunhada?"
"Mesmo a intenção do médico, em princípio elogiável, de procurar transmitir otimismo a seus pacientes pode servir paradoxalmente ao propósito de evitar contato com as questões mais graves que os afligem. Todos nós, de alguma forma, em determinados momentos, agimos dessa maneira: desqualificamos queixas, tergiversamos, acenamos com esperanças vãs, lançamos mão da explicação mais imediata para nos livrar de perguntas incômodas e encurtamos ao máximo a duração das visitas aos que estão deprimidos ou excessivamente pessimistas. Muitas vezes, tomamos tais atitudes sem nos dar conta, para nos defender de desgastes emocionais; outras vezes, em consequência do excesso de trabalho, por falta de empatia ou por não termos energia suficiente para manifestar ao outro a solidariedade que esperaria de nós."
"A casa de campo não representava mais nada, aliás, nenhum lugar ou bem material tem significado algum. Quando o tempo é curto, o que interessa é estar atento aos pequenos prazeres, como ouvir o sabiá que me acordou essa manhã, e aproveitar em toda a sua intensidade a companhia das pessoas queridas."
"Custei a aceitar a constatação de que muitos dos meus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes, mas essa descoberta transformou minha vida pessoal: será que com esforço não consigo aprender a pensar e a agir como eles enquanto tenho saúde?"
"Nas limitações ao funcionamento do corpo, as expectativas em relação ao que nos cerca podem mudar radicalmente – o essencial torna-se supérfluo, e vice-versa, numa fração de segundo. Um doente que não consegue se alimentar há uma semana é capaz de chorar de emoção ao engolir três colheradas de sopa de mandioquinha; outro comemora a proeza de andar até o banheiro com a alegria de quem ganhou a maratona de Nova York. Só quem padece de dores contínuas conhece o prazer de passar duas horas sem elas."
"Ao fechar os olhos diante da perda da integridade física do outro, procuramos afastar de nós o desconforto da lembrança de nossa própria efemeridade."
"Vocês, mais moços, não podem ver lágrimas nos olhos dos doentes. Dão as piores notícias e querem vê-los reagir com alegria, como se nada houvesse. Deixa chorar, que man existe? O choro é uma reação exclusiva do cérebro humano, fundamental para descarregar tensões emocionais, acalmar e trazer sabedoria ao espírito para aceitar a realidade."
"Tive vontade de percorrer as faculdades de medicina para dizer aos alunos, no primeiro dia de aula, o que nunca ouvira de meus professores: na medicina, curar é o objetivo secundário, se tanto. A finalidade primordial da nossa profissão é aliviar o sofrimento humano."
"Quanta diferença haveria entre nascer num lugar sem gente pobre como Estocolmo e num bairro operário de São Paulo? Se eu tivesse recebido a mesma educação e fosse tão bonito quanto aquele rapaz, minha vida teria sido mais fácil? Mais feliz?"
"Como não existíamos (portanto, não fomos consultados para vir ao mundo), consideramos a vida uma dádiva da natureza, e nosso corpo, uma entidade construída à imagem e semelhança de Deus, exclusivamente para nos trazer felicidade, atender aos nossos caprichos e nos proporcionar prazer."
"Sempre fui explosivo: brigava no trânsito, xingava os outros, ficava irritado por qualquer bobagem, já acordava chateado sem saber por quê. Quando entendi que podia morrer, pensei: não tem cabimento desperdiçar o resto da vida. Virei Albert Einstein, o defensor da relatividade: quando alguma coisa me desagrada, procuro avaliar que importância ela tem no universo. Descobri que é possível ser feliz até quando estou triste."
"Não aguento mais fazer sala pra visitantes que só falam banalidades! Fraco desse jeito, que interesse posso ter nos gols do centroavante do Palmeiras, no carro novo que o sogro do meu vizinho comprou ou nas gracinhas do gato angorá da minha cunhada?"
"Mesmo a intenção do médico, em princípio elogiável, de procurar transmitir otimismo a seus pacientes pode servir paradoxalmente ao propósito de evitar contato com as questões mais graves que os afligem. Todos nós, de alguma forma, em determinados momentos, agimos dessa maneira: desqualificamos queixas, tergiversamos, acenamos com esperanças vãs, lançamos mão da explicação mais imediata para nos livrar de perguntas incômodas e encurtamos ao máximo a duração das visitas aos que estão deprimidos ou excessivamente pessimistas. Muitas vezes, tomamos tais atitudes sem nos dar conta, para nos defender de desgastes emocionais; outras vezes, em consequência do excesso de trabalho, por falta de empatia ou por não termos energia suficiente para manifestar ao outro a solidariedade que esperaria de nós."
"A casa de campo não representava mais nada, aliás, nenhum lugar ou bem material tem significado algum. Quando o tempo é curto, o que interessa é estar atento aos pequenos prazeres, como ouvir o sabiá que me acordou essa manhã, e aproveitar em toda a sua intensidade a companhia das pessoas queridas."
"Custei a aceitar a constatação de que muitos dos meus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes, mas essa descoberta transformou minha vida pessoal: será que com esforço não consigo aprender a pensar e a agir como eles enquanto tenho saúde?"
Fragmento trazido pelo vento
O Albatroz - Charles Baudelaire
Às vezes, para brincar, os homens da equipagem
Às vezes, para brincar, os homens da equipagem
Prendem um albatroz, ave imensa dos mares,
Indolente a seguir amigo de viagem
O barco a deslizar por salobros lugares.
Apenas colocado nas pranchas cinzentas,
Esse rei do infinito, acanhado, sem jeito,
Deixa pender as asas grandes e alvacentas
Como remos por terra, sem qualquer efeito.
O viajor alado é canhestro e esquisito!
Ele, tão feio agora, há pouco lindo estava!
Um cutuca-lhe o bico com pequeno pito,
Outro imita, mancando, o coxo que voava!
O Poeta é assim como esse rei dos ares
Que frequenta a borrasca, do arqueiro a zombar;
Exilado no chão entre chistes vulgares,
As asas de gigante impedem-no de andar.
O fio das missangas - Mia Couto
"Falar é fácil. Custa é aprender a calar."
"O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias?"
"Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices."
"O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que eu estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino?"
"Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair."
"A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos?"
"E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água?"
"O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias?"
"Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices."
"O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que eu estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino?"
"Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair."
"A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos?"
"E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água?"
Cada homem é uma raça - Mia Couto
"História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, tem todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens."
"Fixei o céu, procurando Deus. Mas eu não tinha vistas para tão longe."
"A morte se tornara tão frequente que só a vida fazia espanto."
"É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei."
"Tenho duas pernas: uma de santo, outra de diabo. Como posso seguir um só caminho?"
"Acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade."
"Os vindouros, esses que aguardam por corpo, são quem mais deveríamos temer. Porque deles sabemos o quase nada. Dos mortos ainda vamos recebendo recados, afeiçoamo-nos a suas familiares sombras."
"Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo."
"Fixei o céu, procurando Deus. Mas eu não tinha vistas para tão longe."
"A morte se tornara tão frequente que só a vida fazia espanto."
"É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei."
"Tenho duas pernas: uma de santo, outra de diabo. Como posso seguir um só caminho?"
"Acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade."
"Os vindouros, esses que aguardam por corpo, são quem mais deveríamos temer. Porque deles sabemos o quase nada. Dos mortos ainda vamos recebendo recados, afeiçoamo-nos a suas familiares sombras."
"Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo."
Fragmentos trazidos pelo vento
"É uma coisa estranha, esse negócio de sermos humanos; por que não abraçarmos nossa estranheza, em vez de tentar domá-la? Este é o caminho do excêntrico: viver profundamente sua irredutível natureza pessoal." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).
"O pensador de manada é a grande praga de nossos dias: por todos os lados, miasmas contraditórios tentam uniformizar a voz, a natureza, a alma do indivíduo. Pensa-se em bloco, gosta-se em bloco, odeia-se em bloco. O espírito do tempo parece nos exigir adesão a este ou àquele grupo, a esta ou àquela cartilha, a este ou àquele ponto final na eterna e necessária algaravia humana." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).
"O mundo não pode avançar enquanto o impulso da individualidade se atrofia. Precisamos de nossa estranheza essencial. (...) Precisamos de pessoas que se atrevam a viver por seus códigos pessoais; pessoas que, sem esquecer o bem da humanidade, ousem pensar – irredutivelmente – com sua própria cabeça." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).
"O pensador de manada é a grande praga de nossos dias: por todos os lados, miasmas contraditórios tentam uniformizar a voz, a natureza, a alma do indivíduo. Pensa-se em bloco, gosta-se em bloco, odeia-se em bloco. O espírito do tempo parece nos exigir adesão a este ou àquele grupo, a esta ou àquela cartilha, a este ou àquele ponto final na eterna e necessária algaravia humana." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).
"O mundo não pode avançar enquanto o impulso da individualidade se atrofia. Precisamos de nossa estranheza essencial. (...) Precisamos de pessoas que se atrevam a viver por seus códigos pessoais; pessoas que, sem esquecer o bem da humanidade, ousem pensar – irredutivelmente – com sua própria cabeça." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).
Claraboia - José Saramago
"Ouvia lá dentro um ruído de vozes: a mãe e a tia falavam. Muito falavam aquelas mulheres. Que tinham elas a dizer todo santo dia, que já não estivesse já dito mil vezes?"
"A paisagem era sempre igual, mas só a achava monótona no dias de verão teimosamente azuis e luminosos em que tudo é evidente e definitivo. Uma manhã de nevoeiro como esta, de nevoeiro delgado que não impedia de todo a visão, cobria a cidade de imprecisões e de sonho."
"– Não pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se é completamente bom ou completamente mau. Acho eu – acrescentou, timidamente.
Amélia virou-se para a irmã, empunhando a colher com que provava a sopa:
– Essa não está má. nesse caso, não tens a certeza de que é bom aquilo de que gostas?
– Não, não tenho.
– Então, por que gostas?
– Gosto porque acho que é bom, mas não sei se é bom."
“– Diz-me lá, se sabes, o que é o bem e o mal. Onde acaba um e começa o outro?
"A paisagem era sempre igual, mas só a achava monótona no dias de verão teimosamente azuis e luminosos em que tudo é evidente e definitivo. Uma manhã de nevoeiro como esta, de nevoeiro delgado que não impedia de todo a visão, cobria a cidade de imprecisões e de sonho."
"– Não pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se é completamente bom ou completamente mau. Acho eu – acrescentou, timidamente.
Amélia virou-se para a irmã, empunhando a colher com que provava a sopa:
– Essa não está má. nesse caso, não tens a certeza de que é bom aquilo de que gostas?
– Não, não tenho.
– Então, por que gostas?
– Gosto porque acho que é bom, mas não sei se é bom."
“– Diz-me lá, se sabes, o que é o bem e o mal. Onde acaba um e começa o outro?
– Isso não sei, nem é pergunta que se faça. O que sei é
reconhecer o mal e o bem onde quer que estejam...
– De acordo com o que pensas a respeito deles...
– Nem podia ser de outra maneira. Não é com as ideias dos
outros que eu ajuízo!
– Pois é aí que está o ponto difícil. Esqueces que os outros
também têm as suas ideias acerca do bem e do mal. E que podem ser mais justas
que as tuas...
– Se toda a gente pensasse como tu, ninguém se entendia. É
preciso regras, é preciso leis!
– E quem as fez? E quando? E com que fim?
Calou-se durante um breve segundo, e perguntou com um
sorriso de malícia inocente:
– E, afinal, pensas com as tuas ideias ou com as regras e as
leis que não fizeste?”
"A preocupação era demasiada para ceder ao jogo dos músculos que comandam o sorriso."
"Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera."
“Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. (...) A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.”
"A preocupação era demasiada para ceder ao jogo dos músculos que comandam o sorriso."
"Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera."
“Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. (...) A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.”
“Mas a compreensão é uma palavra. Ninguém pode compreender
outrem, se não for esse outrem. E ninguém pode ser, ao mesmo tempo, outrem de
si mesmo.”
“A experiência, não sendo aplicada, é como o outro
imobilizado: não produz, não rende, é inútil. E de nada vale a um homem
acumular experiência como se colecionasse selos.”
“Quem tiver sede de humanidade não a irá matar nos versos de
Fernando Pessoa: será como se bebesse água salgada.”
“A verdade, às vezes, parece indecência. Tudo está bem
enquanto não se começam a dizer indecências, enquanto não se começam a dizer
verdades!”
“A sua única compensação estava no amor, não no amor
obrigatório do parentesco, tantas vezes um fardo imposto pelas convenções, mas
o amor espontâneo que de si mesmo se alimenta."
Assinar:
Postagens (Atom)