Hannibal - Thomas Harris

"O verme que destrói você é a tentação de concordar com seus críticos, de obter a aprovação deles."

“Para o que você olha enquanto está tomando uma decisão? A nossa cultura não é reflexiva, nós não erguemos os olhos para os morros. Na maior parte das vezes decidimos as coisas críticas olhando para o chão de linóleo de um corredor institucional, ou sussurrando às pressas numa sala de espera com uma televisão alardeando absurdos.”

“Enquanto dobrava o papel grosso, soube que estava agindo diferente do que era, e ficou satisfeita”.

Fernão Capelo Gaivota - Richard Bach

“E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. ‘Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa.’”

“Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para o outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”

“Escolheremos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendermos neste. Não aprender nada significa que o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e pesos de chumbo a vencer.”

“Você tem menos medo de aprender do que qualquer outra gaivota que conheci em dez mil anos.”

“Ao expulsarem-na, as outras gaivotas só fizeram mal a si próprias, e um dia vão sabê-lo, e um dia verão o que você vê.”

“Era-lhes mais fácil praticar altas execuções do que compreender a razão que estava por detrás delas.”

“Temos de pôr de parte tudo o que nos limita.”

“Quebrem as correntes dos seus pensamentos e quebrarão as correntes do corpo.”

“Falou de coisas muito simples – que as gaivotas têm o direito de voar, que a liberdade é própria de sua natureza, que todo aquele que se oponha a essa liberdade deve ser posto de parte, quer a oposição seja motivada por ritual, superstição ou limitação sob qualquer forma.”

“'O preço de ser incompreendido’, pensou. ‘Ser classificado de diabo ou de deus.’”

“– Por que será – interrogou-se Fernão – que a coisa mais difícil do mundo é convencer a um pássaro de que é livre e de que pode prová-lo a si mesmo se se dedicar a treinar um pouco?”

“Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o entendimento...”

O Ponto de Mutação - Fritjof Capra

“Quando as estruturas sociais e padrões de comportamento tornam-se tão rígidos que a sociedade não pode mais adaptar-se a situações cambiantes, ela é incapaz de levar avante o processo criativo de evolução cultural. Entra em colapso e, finalmente, desintegra-se.”

“A primeira transição, e talvez a mais profunda, deve-se ao lento, relutante, mas inevitável declínio do patriarcado. (...) O que sabemos é que, nestes últimos três mil anos, a civilização ocidental e suas precursoras, assim como a maioria das outras grandes culturas, basearam-se em sistemas filosóficos, sociais e políticos “em que os homens – pela força, pressão direta, ou através do ritual, da tradição, lei e linguagem, costumes, etiqueta, educação e divisão do trabalho – determinam que papel as mulheres devem ou não desempenhar, e no qual a fêmea está em toda parte submetida ao macho.” O poder do patriarcado tem sido extremamente difícil de entender por ser totalmente preponderante. Tem influenciado nossas ideias mais básicas acerca da natureza humana e de nossa relação com o universo – a natureza do “homem” e a relação “dele” com o universo, na linguagem patriarcal. Era o único sistema que, até data recente, nunca tinha sido abertamente desafiado em toda a história documentada, e cujas doutrinas eram tão universalmente aceitas que pareciam constituir leis da natureza; na verdade, eram usualmente apresentadas como tal. Hoje, porém, a desintegração do patriarcado tornou-se evidente. O movimento feminista é uma das mais fortes correntes culturais do nosso tempo, e terá um profundo efeito sobre a nossa futura evolução.”

“Que se permita a todas as coisas fazerem o que elas naturalmente fazem, de modo que sua natureza fique satisfeita.”

“A noção do homem como dominador da natureza e da mulher e a crença no papel superior da mente racional foram apoiadas e encorajadas pela tradição judaico-cristã, que adere à imagem de um deus masculino, personificação da razão suprema e fonte do poder último, que governa o mundo a partir do alto e lhe impõe sua lei divina.”

“O pensamento racional é linear, ao passo que a consciência ecológica decorre de uma intuição de sistemas não-lineares. Umas das coisas mais difíceis de serem entendidas pelas pessoas em nossa cultura é o fato de que se fazemos algo bom, continuar a fazê-lo não será necessariamente melhor.”

“Nosso progresso, portanto, foi uma questão predominantemente racional e intelectual, e essa evolução unilateral atingiu agora um estágio alarmante, uma situação tão paradoxal que beira a insanidade. Podemos controlar os pousos suaves de espaçonaves em planetas distante, mas somos incapazes de controlar a fumaça poluente expelida por nossos automóveis e nossas fábricas.”

“Enquanto o comportamento auto-afirmativo é apresentado como o ideal para os homens, espera-se das mulheres o comportamento submisso, mas também se espera esse comportamento submisso dos empregados e executivos, de quem se exige que neguem suas identidades individuais e adotem a identidade e os padrões de comportamento do grupo. Situação semelhante existe em nossos sistema educacional, no qual a auto-afirmação é recompensada no que se refere ao comportamento competitivo mas é desencorajada quando se expressa em termos de ideias originais e questionamento da autoridade.”

“As partículas subatômicas – e, portanto, em última instância, todas as partes do universo – não podem ser entendidas como unidades isoladas, mas devem ser definidas através de suas inter-relações. (...) Essa mudança de objetos para relações tem implicações de longo alcance para a ciência como um todo. Gregory Bateson argumentou, inclusive, que as relações devem ser usadas como base para todas as definições, e que isso deveria ser ensinado às nossas crianças na escola primária. Acreditava que qualquer coisa devia ser definida por suas relações com outras coisas e não pelo que é em si mesma.”

“O universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que com uma máquina.”

“O elétron não possui propriedades objetivas independentes da minha mente. Na física atômica, não pode mais ser mantida a nítida divisão cartesiana entre matéria e mente, entre o observado e o observador. Nunca podemos falar da natureza sem, ao mesmo tempo, falar sobre nós mesmos.”

“Na física moderna, a massa deixou de estar associada a uma substância material; por conseguinte, não se considera que as partículas consistam em qualquer ‘substância’ básica; elas são vistas como feixes de energia.”

“Esses modelos de energia do mundo subatômico formam as estruturas nucleares, atômicas e moleculares estáveis que constroem a matéria e lhe confere seu sólido aspecto macroscópico, fazendo-nos por isso acreditar que ela é feita de alguma substância material. Em nível macroscópico, essa noção de substância é uma útil aproximação, mas no nível atômico deixa de ter qualquer sentido. Os átomos consistem em partículas, e estas partículas não são feitas de qualquer substância material. Quando as observamos, nunca vemos qualquer substância; o que vemos são modelos dinâmicos que se convertem continuamente uns nos outros – a contínua dança da energia. (...) Há movimento, mas não existem, em última análise, objetos moventes; há atividade, mas não existem atores; não há dançarinos, somente a dança.”

“Ao concentrar-se em partes cada vez menores do corpo, a medicina moderna perde frequentemente de vista o paciente como ser humano, e, ao reduzir a saúde a um funcionamento mecânico, não pode mais ocupar-se com o fenômeno da cura.”

“Em vez de tratarem pacientes, que estão enfermos, os médicos concentraram-se no tratamento de suas doenças. Perderam de vista a importante distinção entre os dois conceitos.”

“Muitas pessoas aderem obstinadamente ao modelo biomédico porque receiam ter seu estilo de vida examinado e ver-se confrontadas com seu comportamento doentio. Em vez de enfrentarem tal situação embaraçosa e frequentemente penosa, insistem em delegar toda a responsabilidade por sua saúde ao médico e aos medicamentos. Além disso, como sociedade, somos propensos a usar o diagnóstico médico como cobertura para problemas sociais. Preferimos falar sobre ‘hiperatividade’ ou a ‘incapacidade de aprendizagem’ de nossos filhos, em lugar de examinarmos a inadequação de nossas escolas; preferimos dizer que sofremos de ‘hipertensão’ a mudar nosso modo supercompetitivo dos negócios; aceitamos as taxas sempre crescentes de câncer em vez de investigarmos como a indústria química envenena nossos alimentos para aumentar seus lucros.”

“A natureza é o corpo inorgânico do homem – isto é, a natureza, na medida em que ela própria não é o corpo humano. ‘O homem vive na natureza’ significa que a natureza é seu corpo, com o qual ele deve permanecer em contínuo intercurso se não quiser morrer. Que a vida física e espiritual do homem está vinculada à natureza significa, simplesmente, que a natureza está vinculada a si mesma, pois o homem é parte da natureza.”

“Uma das características predominantes das economias de hoje, tanto a capitalista quanto a comunista, é a obsessão com o crescimento. O crescimento econômico e tecnológico é considerado essencial por virtualmente todos os economistas e políticos, embora nesta altura dos acontecimentos já se devesse estar bastante claro que a expansão ilimitada num meio ambiente finito só pode levar ao desastre. A crença na necessidade de crescimento contínuo é uma consequência da excessiva Ênfase dada aos valores yang – expansão, autoafirmação, competição – e está relacionada com as noções newtonianas de espaço e tempo absolutos e infinitos. É um reflexo do pensamento linear, da crença errônea em que, se algo é bom para um indivíduo ou um grupo, quanto mais desse algo houver melhor será.”

“‘Mais crescimentos é essencial para que todos tenham oportunidade de melhorar sua qualidade de vida’. Rockfeller não se referia, evidentemente, à qualidade de vida, mas ao chamado padrão de vida, que é equiparado ao consumo material. Os fabricantes gastam verbas enormes em publicidade a fim de que seja mantido um padrão de consumo competitivo; assim, muitos dos artigos consumidos são desnecessários, supérfluos e, com frequência, manifestamente nocivos.”

“Em nossa sociedade, a maioria das pessoas está insatisfeita com o trabalho que fazem e veem a recreação como o principal objetivo de suas vidas. Assim, o trabalho tornou-se o oposto do lazer, que é servido por uma gigantesca indústria concentrada na produção de aparelhos que consomem recursos e energia – jogos eletrônicos, barcos de corrida, trenós e patins – e que exorta as pessoas a um consumo cada vez mais esbanjador.”

“O excessivo crescimento tecnológico criou um meio ambiente no qual a vida se tornou física e mentalmente doentia. Ar poluído, ruídos irritantes, congestionamento de tráfego, poluentes químicos, riscos de radiação e muitas outras fontes de estresse físico e psicológico passaram a fazer parte da vida cotidiana da maioria das pessoas. Esses múltiplos riscos para a saúde não são apenas subprodutos casuais do progresso tecnológico; são características integrantes de um sistema econômico obcecado com o crescimento e a expansão, e que continua a intensificar sua alta tecnologia numa tentativa de aumentar a produtividade.”

“Nossa obsessão pelo crescimento econômico e pelo sistema de valores que lhe é subjacente criou um meio ambiente físico e mental no qual a vida se tornou extremamente insalubre. Talvez o aspecto mais trágico desse dilema social seja o fato de que os perigos à saúde criados pelo sistema econômico são causados não só pelo processo de produção, mas pelo consumo de muitos dos artigos que são produzidos e promovidos por campanhas maciças de publicidade para alimentar a expansão econômica.”

“O que sobrevive é o organismo-em-seu-meio-ambiente. Um organismo que pense unicamente em termos de sua própria sobrevivência destruirá invariavelmente sem meio ambiente e, como estamos aprendendo por amarga experiência, acabará por destruir a si mesmo.”

“Na medida em que o meio ambiente muda, o cérebro amolda-se em resposta a essas mudanças.”

“Ao desenvolvermos nossa capacidade de pensamento abstrato num ritmo tão rápido, parece que perdemos a importante aptidão de ritualizarmos conflitos sociais. Em todo o mundo animal, a agressão raramente se desenvolve a ponto de levar um dos adversários à morte. Pelo contrário, a luta é ritualizada e termina usualmente com o perdedor aceitando a derrota, mas permanecendo relativamente indene. Essa sabedoria desapareceu ou, pelo menos, ficou profundamente submersa na espécie humana nascente. No processo de criação de um mundo interior abstrato, parece que perdemos o contato com as realidades da vida e passamos a ser as únicas criaturas que, com frequência, não são capazes de cooperar, e que chegam a matar indivíduos de sua própria espécie. A evolução da consciência deu-nos não só a pirâmide de Quéops, os concertos de Brandemburgo e a teoria da relatividade, mas também a queima de bruxas, o Holocausto e a bomba de Hiroxima.”

“Administrar remédios para doenças que já se desenvolveram (...) é comparável ao comportamento daquelas pessoas que começam a cavar um poço muito depois de terem ficado com sede, e daquelas que começam a fundir armas depois de já terem entrado na batalha. Não seriam essas providências excessivamente tardias?”

"Enquanto a transformação está ocorrendo, a cultura declinante recusa-se a mudar, aferrando-se cada vez mais obstinada e rigidamente a suas ideias obsoletas; as instituições sociais dominantes tampouco cederão seus papéis de protagonistas às novas forças culturais. Mas seu declínio continuará inevitavelmente, e elas acabarão por desintegrar-se, ao mesmo tempo que a cultura nascente continuará ascendendo e assumirá finalmente seu papel de liderança. Ao aproximar-se do ponto de mutação, a compreensão de que mudanças evolutivas dessa magnitude não podem ser impedidas por atividades políticas a curto prazo fornece a nossa mais robusta esperança para o futuro."

A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector

“Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio.”

“Faze com que ele sinta que a morte não existe porque já estamos na eternidade... (…) faze com que ele receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la...”

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam.”

“Quero ser anônima e íntima. Quero falar sem falar, se é possível. (…) É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.”

“Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são 'muito humanas' está me cansando. Em geral esse 'humano' está querendo dizer 'bonzinho', 'afável', senão meloso.”

“Estou cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.”

“A verdade do mundo é impalpável.”

“Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro.”

“Como o ser humano um dia fez uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos.”

“Palavras de uma amiga. 'Fortifica o que de melhor tiveres em ti. Não prestes atenção à opinião alheia. Faze de ti mesma e de teu próprio Eu o teu mestre. Quando ele estiver bastante fortalecido, despertará e coisas jamais sonhadas te serão reveladas.”

“Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal.”

“É preciso também não perdoar. (…) A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo.”

“É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre arbítrio.”

"Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?”

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.”

“Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara.”

“Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas alguma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa.”

“Thoreau , por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas ‘melhore o momento presente’, exclamava. E acrescentava: ‘Estamos vivos agora’. E comentava com desgosto: ‘Eles estão juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar’. A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo dia de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome uma providência agora, pois só nas sequências dos agoras é que você existe.”

“Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez usada entenderá o que quero dizer.”

“– Tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam deprimidas, e não sabem o que perdem.
Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.”

“Gafe é a hora em que certa realidade se revela.”

“Quem sabe, se fingissem menos naturalidade, ficassem mais naturais.”

“A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos.”

“Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade e liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.”

“Estava permanentemente ocupada em querer e não quer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia; ter nascido era cheio de erros a corrigir.”

“Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre.”

“De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.”

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente."

“Perguntei-lhe se já experimentara sentir-se em solidão ou se sua vida tinha sempre esse brilho justificável. Eu aconselhei que de vez em quando ficasse sozinho, senão seria submergido, pois até o amor excessivo dos outros podia submergir uma pessoa. Ele concordou, e disse que sempre que podia dava suas retiradas.”

“Há os que já têm o LSD em si, sem precisar tomá-lo.”

“Ele disse: não chore, que chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva de que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco.”

“Antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado.”

“Ter nascido me estragou a saúde.”

“Eu sei de muito pouco. Mas tenho ao meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos.”

“Precisará compreender que é frequentemente tão importante quebrar um bom hábito como quebrar um mau. Todos os hábito são suspeitos.”

“Às vezes me enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta.”

“E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei.”

“Era profundamente derrotado pelo mundo em que vivia. E separara-se das pessoas pela sua derrota e por sentir que os outros também eram derrotados. Ele não queria fazer parte de um mundo onde, por exemplo, o rico devorava o pobre. Como parecia-lhe um movimento apenas romântico, o seu, se se agregasse aos que lutavam contra o esmagamento da vida como esta era, então fechou-se numa individualização que, se não tomasse cuidado, podia se transformar em solidão histérica ou meramente contemplativa. Enquanto não viesse algo melhor, procurava relacionar-se com os outros derrotados por intermédio de uma espécie de amor torto, que atingia tanto os outros como, de algum modo, a si próprio.”

“Creio mesmo que um dia vou estourar de lucidez, isto é, ficar louco.” (Millôr Fernandes)

“Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. E a esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer.”

As Crônicas Marcianas - Ray Bradbury

“E os homens de Marte perceberam que, para sobreviver, precisariam parar de se perguntar: Por que viver? A vida era a própria resposta. (...) A vida estava boa e não carecia de argumentação.”

Ilusões - Richard Bach

“E lhes disse: Dentro de nós está o poder de nosso consentimento para a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a liberdade e a escravidão. Somos nós que controlamos isso, e não os outros.”

“‘Seria uma honra ser enforcado, uma glória ser pregado a uma árvore e queimado, se fosse isso que Deus pedisse’, disseram eles. ‘E o que fariam vocês’, perguntou o Mestre à multidão, ‘se Deus lhes falasse diretamente, em pessoa, e dissesse: ordeno que sejas feliz no mundo enquanto viveres. O que fariam então?’ E a multidão calou-se e nem uma voz ou som foi ouvido sobre os morros e pelos vales. E o Mestre disse: ‘No caminho de nossa felicidade encontraremos o conhecimento para o qual escolhemos esta vida. É assim que aprendi hoje e prefiro deixá-los agora para seguirem o seu caminho, como desejarem.”

“Eu queria dizer: ‘Se vocês tanto desejam a liberdade e a alegria, não podem ver que não se encontram em nenhum lugar fora de vocês? Diga que as tem e assim será. Ajam como se fossem suas, e serão!’ Richard, o que há de tão difícil nisso? Mas a maioria nem ouviu.”

 “– Escute! – disse ele, atravessando o abismo entre nós. – Este mundo? E o que há nele? Ilusões, Richard. Tudo ilusões!”

“Mas já estou farto das multidões, mesmo quando estou felizes... se ficam com medo, ou querem crucificar alguém, ou adorá-lo. Sinto muito, mas é demais!”

“O laço que une a sua família verdadeira não é de sangue, mas de respeito e alegria pela vida um do outro. Raramente os membros de uma família se criam sob o mesmo teto.”

“Obriguei-me a pensar que nunca deveria permitir que um livro substituísse o meu próprio raciocínio.”

“– Não é assim que funciona. Se você aprende o que é este mundo e como funciona, automaticamente começa a fazer milagres, ou o que chamarão de milagres. Mas, naturalmente, nada é milagroso. Se aprender o que o mágico sabe, aquilo deixa de ser mágica.
Afastou os olhos do céu.
– Você é como todo mundo. Já conhece isso. Apenas ainda não tem consciência de que já conhece.”

A Bagagem do Viajante - José Saramago

"Se eu tiver um palácio e lhe chamar 'a minha barraca', afasto com isso o raio que é atraído pelos lugares altos?"

"Ao contrário do que afirmam os ingênuos (todos os somos uma vez por outra), não basta dizer a verdade. De pouco ela servirá ao trato das pessoas se não for crível, e talvez devesse até ser essa a sua primeira qualidade. A verdade é apenas meio caminho, a outra metade chama-se credibilidade. Por isso há mentiras que passam por verdades, e verdades que são tidas por mentiras."

“E se lhe doer a cabeça, é bom sinal: também, ao que dizem, nascer é um sofrimento.”

“No meu fraco entender, as verdades, morais ou imorais (e sobretudo estas), deveriam andar bem à vista de toda a gente, como a cor dos olhos.”

“Não invento nada. Faço esta declaração imediata porque adivinho já os sorrisos solertes ou desconfiados daquela gente para quem o extraordinário é sempre sinônimo de mentira. Essas pobres pessoas não sabem que o mundo está cheio de coisas e de momentos extraordinários. Não os vêem, porque para eles o mundo aparece como coberto de cinzas, comido de verdete baço, povoado de figuras que usam roupas iguais e falam da mesma maneira, com gestos repetidos sobre gestos já feitos por outros desaparecidos seres. É gente para quem talvez não haja remédio, mas a quem devamos continuar a dizer que o mundo e o que está nele não são o tão pouco que julgam.”

“Como qualquer pessoa que do álcool faça apenas consumo normal ou abaixo da média, tenho um certo receio instintivo de bêbados. Para mim, saíram da humanidade do mundo, e criaram por lá umas leis que não conheço.”

“Mas as oportunidades e situações é que fazem e desfazem os homens.”

“Talvez a fraqueza de cada um de nós não seja irremediável. A vida está aí a nossa espera, quem sabe se para tirar a prova real do que valemos. Saberemos alguma vez quem somos?”

“Afinal, não é muito grande a diferença que há entre um dicionário de biografias e um vulgar cemitério. (…) Mas o visitante fará bem em não se deixar confundir pelos alçados de arquiteto, pelas esculturas e cruzes, pelas carpideiras de mármore, por todo o cenário que a morte pomposa desde sempre aprecia. Igualmente deverá dar atenção, se está em campo aberto, sem referências, ao sítio onde põe os pés, não vá acontecer que debaixo dos seus sapatos se encontre o maior homem do mundo.”

“Demasiado esquecemos que os homens são de carne facilmente sofredora. Desde a infância que os educadores nos falam de mártires, dão-nos exemplos de civismo e moral à custas deles, mas não dizem quanto foi doloroso o martírio, a tortura. Tudo fica no abstrato, filtrado, como se olhássemos a cena, em Roma, através de grossas paredes de vidro que abafassem os sons, e as imagens perdessem a violência do gesto por obra, graça e virtude da refração.”

“Este país de gente calada, que dificilmente junta duas ideias de forma inteligível, sem os bordões onomatopaicos a que a frase se vai laboriosamente encostando – é, ao mesmo tempo, um dos países em que mais se fala. Compreende-se por quê. Aquelas a quem é dada a autoridade e às vezes a ordem de falar, sabendo que falam para uma população de alheados, usam e abusam do verbo, numa espécie de jovial impunidade. De mais sabem eles que não terão contraditores, que ninguém lhes apontará as incoerências, os ilogismos, as contradições, os atentados contra a verdade, os erros de gramática. Em cada duas falas, quantas vezes repetidas no pouco vocabulário e nenhuma no estilo, há uma cápsula de silêncio protetor que, ao parecer, nada poderá quebrar ou sequer fender.”

“Uma dessas histórias, a mais breve que eu conheço, está contada em duas linhas e é isto apenas: 'E disse Deus: Faça-se a luz. E foi feita a luz.' (…) As velhas histórias pesam. Afirmam que a luz se fez e procedem hipnoticamente por repetição. Entretanto, o espírito cercado levanta a cabeça e pergunta: 'Qual luz? Onde? Para quem?'”

“E quando a fita acabava, voltávamos a casa, de coração apertado, com medo das sombras, das esquinas, do guarda-noturno, da escada sem luz. Toda a noite sonhávamos e suávamos de aflição. Bons tempos. Agora, os Dráculas e outros vampiros só conseguem fazer-nos rir.”

"Se não fosse a deliberada reserva em que me escondo, não sei que mais constante raiva por aí se expandiria."

O Símbolo Perdido - Dan Brown

“– Não contem para ninguém, mas no dia em que o deus-sol Rá é venerado pelos pagãos, eu me ajoelho aos pés de um antigo instrumento de tortura e consumo símbolos ritualísticos de sangue e carne.
A turma toda fez uma cara horrorizada.
Langdon deu de ombros.
– E, se algum de vocês quiser se juntar a mim, vá à capela de Harvard no domingo, ajoelhe-se diante da cruz e faça a santa comunhão.
A sala continuou em silêncio.
Langdon deu uma piscadela.
– Abram a mente, meus amigos. Todos nós tememos aquilo que foge à nossa compreensão.”

“Quanto mais o homem aprendia, mais se dava conta da sua ignorância.”

“– E se eu dissesse a você que o pensamento, qualquer ideia minúscula que se forme na sua mente, possui uma massa? E se eu lhe dissesse que um pensamento é uma coisa de verdade, uma entidade mensurável, com uma massa mensurável? Minúscula, é claro, mas ainda assim uma massa. Quais seriam as implicações disso?
– Hipoteticamente falando? Bem, as implicações óbvias seriam: se um pensamento tem massa, então ele exerce uma força de gravidade e pode atrair coisas para si.
Katherine sorriu.
– Você é boa. Agora avance mais um pouco. O que acontece se muitas pessoas começam a se concentrar no mesmo pensamento? Todas as ocorrências desse pensamento passam a se consolidar em uma só, e a massa acumulada dele começa a aumentar. Portanto, sua gravidade aumenta.
– Certo.
– O que significa que... se um número suficiente de pessoas começa a pensar a mesma coisa, então a força gravitacional dessa ideia se torna tangível e exerce uma força de verdade. – Katherine deu uma piscadela. – E ela pode ter um efeito mensurável no nosso mundo físico.”

“No meu trabalho, nós aprendemos que a fronteira entre insanidade e genialidade é tênue.”

“A aceitação generalizada de uma ideia não é prova de sua validade.”

“– E os seus alunos não acham perturbador o fato de os maçons meditarem em meio a caveiras e foices? – Perguntou Sato.
– Não mais do que os cristãos rezando aos pés de um homem pregado na cruz, ou do que os hindus entoando cânticos diante de um elefante de quatro braços chamado Ganesha. A má compreensão dos símbolos de uma cultura é uma fonte comum de preconceito.”

“A maioria dos cristão querem o melhor dos dois mundos. Eles querem poder declarar orgulhosamente que creem na Bíblia, mas simplesmente preferem ignorar as partes que consideram difíceis ou inconvenientes demais para acreditar.”

O Aleph - Paulo Coelho

"O nome disso é rotina. Você acha que existe porque está infeliz. Outras pessoas existem em função de seus problemas e vivem falando compulsivamente a respeito deles."

"Sabendo que procuramos interpretar todas as coisas de acordo com aquilo que queremos, e não como elas são."

"Coragem pode atrair medo e adulação, mas força de vontade requer paciência e compromisso."

"Nenhuma vida está completa sem um toque de loucura."

“As palavras são lágrimas que foram escritas. As lágrimas são palavras que precisam jorrar.”

“De vez em quando precisamos ser estrangeiros de nós mesmos.”

“Viver é experimentar, e não ficar pensando no sentido da vida.”

“– Você ainda acha que deve continuar a viagem?
– Mais do que nunca. O terror sempre me fascinou.”

“Quem conhece a Deus não o descreve. Quem descreve a Deus não o conhece.”

“Porque há alguns meses me queixei de que não estava conectado à energia divina? Que bobagem! Sempre estamos, é a rotina que não nos permite reconhecer isso.”

“Costumamos medir o tempo como medimos a distância entre Moscou e Vladivostok. Mas não é isso. O tempo não se move tampouco está parado. O tempo muda. Ocupamos um ponto nessa constante mutação...”

“Não estou casado há mais de duas décadas com a mesma pessoa. É mentira. Nem ela nem eu somos os mesmos...”

“Não somos aquilo que as pessoas desejavam que fôssemos. Somos quem decidimos ser. Culpar os outros sempre é fácil. Você pode passar a vida culpando o mundo, mas seus sucessos ou suas derrotas são de sua inteira responsabilidade.”

“Trabalhar apenas com a experiência é repetir soluções velhas para problemas novos.”

“Você habita este corpo gigantesco que é o Universo, onde estão todas as soluções e todos os problemas. Visite sua alma em vez de visitar seu passado.”

"O mesmo se passou com a igreja a que pertenço. Matamos em nome de Deus, torturamos em nome de Jesus, decidimos que a mulher era uma ameaça para a sociedade e suprimimos todas as manifestações dos dons femininos, praticamos a usura, assassinamos inocentes e fizemos alianças com o diabo. Mesmo assim, dois mil anos depois ainda estamos aqui."

"É possível evitar a dor? Sim, mas você jamais aprenderá alguma coisa."

O Livro dos Erros - Mário Goulart

"O diretor Barry Sonnenfeld, de A Família Addams, define o que é terror: 'Macabro é você estar na cama, numa noite de chuva, como convém, ouvir um carro cantar longamente os pneus, fechar os olhos, enlevado, preparar-se para estalar os dedos ao ouvir o estrondo – e aí não acontece nada, só o silêncio. Macabro é você ficar decepcionado com a batida que não houve'."

"Por que a lebre, menor e fraca, corre mais do que o cão de caça? (…) É porque a lebre trabalha para si, enquanto o cão de caça trabalha para seus donos."

"Rotina seguida à risca por José Saramago, que escreve sempre das 17h às 21h:
– Escrevo porque já almocei e janto porque já escrevi."

"Você decide, disse Henry Ford:
 – Se você acredita que é capaz, ou se acredita que não é capaz, de qualquer forma você tem razão."

"Sapatos de salto alto não prestam por um motivo muito simples, segundo Kinsey Millhone, personagem da escritora Sue Grafton:
– Se esse tipo de calçado fosse tão maravilhoso assim, os homens estariam usando."

"Advertência de Isaac Asimov:
–  Sua liberdade de fumar termina onde começam meus pulmões."

Raul Seixas, O Sonho da Sociedade Alternativa - Luciane Alves

"Esse é o grande problema enfrentado por aqueles que querem exteriorizar suas vontades, pois não encontram apoio nas outras pessoas que ainda hesitam em acreditar nos seus poderes interiores. E essas acabam condenando aquelas que já perceberam que são capazes de realizar mudanças significativas. Isso ocorre porque a grande maioria das pessoas é criada e educada dentro de um padrão que consideram normal. Se um indivíduo discorda desses padrões e resolve organizar sua vida de acordo com o que ele acha que é melhor, certamente será considerado um subversivo..."

"Raul É, o maluco beleza não é um maluco louco, envolvido com drogas, como o povo pensa não... O maluco beleza é você estar iluminado, estar certo de você mesmo... certo de sua loucura. Misturando lucidez com maluquez. Uma loucura que não é prejudicial..."

"Paulo – Uma vez você disse: 'Se eu fosse burro eu sofria menos.'
Raul – É, me lembro sim.
Paulo – É uma frase muito forte essa. O que você quis dizer com ela?
Raul – Quis dizer muita coisa, né, Paulo? A gente que tem a sensibilidade muito grande, qualquer coisa aguça isso, fere, dói. Cada olhar... quando você vira o pescoço à sua volta você já captou tudo, já engoliu tudo... já comeu. E o que entra quando você passa os olhos ao redor... entra tudo, sem filtro... entra o bom, o ruim, o doce, o amargo, o azedo... sem filtro nenhum. E para coar no seu estômago, principalmente quando se está com o estômago vazio, é duro! Explode dentro de uma barriga vazia." 

"Bicho, eu falo coisas que só mais tarde eu me dou conta do que eu disse e dependendo do nível da pessoa que me ouve, nunca vai entender."

"Uma pessoa 'diferente' é considerada perigosa porque pode apontar para novas direções, pode descortinar novos horizontes, pode abrir os olhos dos demais para outras verdades. É perigoso, para uma sociedade estabilizada, um ser que possa plantar uma semente de transformação, porque toda mudança implica numa revisão de antigos valores já estabelecidos e impostos como a melhor maneira de viver. O que se esquece é que não existe uma maneira ideal, pois tudo é movimento. O próprio universo, aparentemente tão estável, vive em uma dança constante, numa expansão eterna. Não há fim... Qualquer tentativa de padronização transforma-se, automaticamente, em estagnação, que é um atraso no crescimento e, portanto, um crime contra as leis da natureza."

Missionários da Luz - Chico Xavier

"As cristalizações mentais de muitos anos não se desfazem com esclarecimentos verbais de um dia."

"Com que direito perturbaríamos o coração de uma pobre viúva na Crosta, a pretexto de sermos verdadeiros? Por que motivo tisnar a esperança tranquila de três crianças adoráveis, envenenando-lhes, talvez, o destino, tão só para nos exibirmos como campeões da realidade? Haverá mais alegria em mostrar a sombra do crime que em descobrir a fonte do conforto? André, meu irmão, a vida pede muito discernimento! Cada palavra tem sua ocasião, como cada revelação o seu tempo."

Um mendigo original - João do Rio

"A verdadeira inteligência é a que se limita para evitar dissabores."

Fragmento trazido pelo vento

"Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Interessan-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida." (Doidas e Santas - Martha Medeiros)

Fragmentos trazidos pelo vento

“No deserto, para espantar os lobos, os homens batem panelas. Na vida, para afastar o encontro pessoal, costumamos bater panelas também. O filósofo Julián Marías nos falava que o homem vive à procura do que fazer. Esse 'que fazer' dá o sentido à vida, que concretiza a nossa existência à medida que vamos nos fazendo. Quando não trabalhamos bem nosso interior, somos um alvo fácil às artimanhas do mundo exterior. Note a angústia das pessoas que se embrenharam no mundo das celebridades sem um mínimo de conteúdo ou daquelas que montam sua vida em cima de um belo corpo ou na beleza fútil.” (entrevista Waldir Pedro, Revista Filosofia, Agosto 2012)

“A comodidade consiste em não questionar se o que estamos fazendo realmente é o que queremos ou se as circunstâncias nos levaram a isso. Para não enfrentar essa pergunta, vamos criando sonhos dentro da nossa zona de conforto. Por isso a Filosofia provoca algumas crises existenciais; diante de pensamentos discordantes, conseguimos ver que alguns valores nos quais alicerçamos nossa existência são fracos. As grandes personalidades se firmaram no tempo por ter a coragem de romper com o estabelecido. A comodidade se dá quando caminhamos como rebanho, com um líder à frente, e não temos a coragem de ser diferentes e lutar por convicções e ideias de vida.” (entrevista Waldir Pedro, Revista Filosofia, Agosto 2012)

“A novidade tornou-se fonte de valor mundano, marca de excelência social; é preciso seguir 'o que se faz' de novo e adotar as últimas mudanças do momento. (...) ‘regras de comportamento adotadas que só agradam pela novidade, e, antes de se tornarem costume, terão de ser trocadas por outras formas igualmente passageiras.’” (Revista Filosofia, Agosto 2012)

“O discurso da moda promete ao consumidor a falsa possibilidade de se tornar uma pessoa singular ao adquirir determinado produto, diferenciando-se assim do rebanho social anônimo. Afinal, cada indivíduo sonha em se destacar da cuba humana e atingir um patamar social de venerabilidade, utilizando-se de todos os meios econômicos para obter tal distinção, cabendo assim o comentário do sociólogo estadunidense Don Slater: ‘As pessoas compram a versão mais cara de um produto não porque tem mais valor de uso do que a versão mais barata (embora possam usar essa racionalização), mas porque significa status e exclusividade.’” (Revista Filosofia, Agosto 2012)