19 de agosto de 2017

10 anos de fragmentos.

Fragmento trazido pelo vento

"Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos." (O ano da morte de Ricardo Reis - José Saramago)

Na natureza selvagem - Jon Krakauer

"Parecia um garoto que estava buscando alguma coisa, buscando alguma coisa. Só não sabia o que era."

"Se o dia e a noite são de tal forma que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais brilhante e mais imortal  –eis aí o vosso êxito."

"Venho pensando cada vez mais que devo ser sempre um caminhante solitário por natureza. Meu Deus, como a trilha me atrai! Você não pode compreender esse incansável fascínio. Ao cabo de tudo, a trilha solitária é a melhor. (...) Jamais deixarei de vaguear. E quando chegar o momento de morrer, encontrarei o lugar mais selvagem, mais solitário, mais desolado que exista."

"Viver deliberadamente: atenção consciente ao básico da vida e uma atenção constante ao meio ambiente imediato e o que lhe diz respeito, exemplo: um emprego, uma tarefa, um livro, tudo exigindo concentração eficiente."

"Passei por muita coisa na vida e agora penso que encontrei o que é necessário para a felicidade. Uma vida tranquila e isolada no campo, com a possibilidade de ser útil à gente para quem é fácil fazer o bem e que não está acostumada que o façam; depois trabalhar em algo que se espera tenha alguma utilidade; depois, descanso, natureza, livros, música, amor pelo próximo."

"Eu admiro meu corpo, essa matéria a qual estou preso tornou-se tão estranha para mim. Não temo espíritos, fantasmas, dos quais sou um – isso meu corpo pode –, mas temo corpos, tenho medo de encontrá-los."

"Oh, como se deseja às vezes escapar da estupidez sem sentido da eloquência humana, de todas aquelas frases sublimes, pra se refugiar na natureza, aparentemente tão inarticulada, ou na ausência de palavras da labuta longa e pesada, do sono saudável, da verdadeira música, ou de uma compreensão humana tornada muda pela emoção!" 

Fragmentos trazidos pelo vento

Estou cansado, é claro,
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


Fernando Pessoa

Por um fio - Drauzio Varella

"Uma hora, o destino exige um sacrifício tão grande para continuarmos vivendo que a gente se cansa: em nome do quê vou passar por isso?"

"Nas limitações ao funcionamento do corpo, as expectativas em relação ao que nos cerca podem mudar radicalmente – o essencial torna-se supérfluo, e vice-versa, numa fração de segundo. Um doente que não consegue se alimentar há uma semana é capaz de chorar de emoção ao engolir três colheradas de sopa de mandioquinha; outro comemora a proeza de andar até o banheiro com a alegria de quem ganhou a maratona de Nova York. Só quem padece de dores contínuas conhece o prazer de passar duas horas sem elas."

"Ao fechar os olhos diante da perda da integridade física do outro, procuramos afastar de nós o desconforto da lembrança de nossa própria efemeridade."

"Vocês, mais moços, não podem ver lágrimas nos olhos dos doentes. Dão as piores notícias e querem vê-los reagir com alegria, como se nada houvesse. Deixa chorar, que man existe? O choro é uma reação exclusiva do cérebro humano, fundamental para descarregar tensões emocionais, acalmar e trazer sabedoria ao espírito para aceitar a realidade."

"Tive vontade de percorrer as faculdades de medicina para dizer aos alunos, no primeiro dia de aula, o que nunca ouvira de meus professores: na medicina, curar é o objetivo secundário, se tanto. A finalidade primordial da nossa profissão é aliviar o sofrimento humano."

"Quanta diferença haveria entre nascer num lugar sem gente pobre como Estocolmo e num bairro operário de São Paulo? Se eu tivesse recebido a mesma educação e fosse tão bonito quanto aquele rapaz, minha vida teria sido mais fácil? Mais feliz?"

"Como não existíamos (portanto, não fomos consultados para vir ao mundo), consideramos a vida uma dádiva da natureza, e nosso corpo, uma entidade construída à imagem e semelhança de Deus, exclusivamente para nos trazer felicidade, atender aos nossos caprichos e nos proporcionar prazer."

"Sempre fui explosivo: brigava no trânsito, xingava os outros, ficava irritado por qualquer bobagem, já acordava chateado sem saber por quê. Quando entendi que podia morrer, pensei: não tem cabimento desperdiçar o resto da vida. Virei Albert Einstein, o defensor da relatividade: quando alguma coisa me desagrada, procuro avaliar que importância ela tem no universo. Descobri que é possível ser feliz até quando estou triste."

"Não aguento mais fazer sala pra visitantes que só falam banalidades! Fraco desse jeito, que interesse posso ter nos gols do centroavante do Palmeiras, no carro novo que o sogro do meu vizinho comprou ou nas gracinhas do gato angorá da minha cunhada?"

"Mesmo a intenção do médico, em princípio elogiável, de procurar transmitir otimismo a seus pacientes pode servir paradoxalmente ao propósito de evitar contato com as questões mais graves que os afligem. Todos nós, de alguma forma, em determinados momentos, agimos dessa maneira: desqualificamos queixas, tergiversamos, acenamos com esperanças vãs, lançamos mão da explicação mais imediata para nos livrar de perguntas incômodas e encurtamos ao máximo a duração das visitas aos que estão deprimidos ou excessivamente pessimistas. Muitas vezes, tomamos tais atitudes sem nos dar conta, para nos defender de desgastes emocionais; outras vezes, em consequência do excesso de trabalho, por falta de empatia ou por não termos energia suficiente para manifestar ao outro a solidariedade que esperaria de nós."

"A casa de Campos não representava mais nada, aliás, nenhum lugar ou bem material tem significado algum. Quando o tempo é curto, o que interessa é estar atento aos pequenos prazeres, como ouvir o sabiá que me acordou essa manhã, e aproveitar em toda a sua intensidade a companhia das pessoas queridas."

"Custei a aceitar a constatação de que muitos dos meus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes, mas essa descoberta transformou minha vida pessoal: será que com esforço não consigo aprender a pensar e a agir como eles enquanto tenho saúde?" 

Fragmento trazido pelo vento

O Albatroz - Charles Baudelaire

Às vezes para brincar os homens da equipagem
Prendem um albatroz, ave imensa dos mares,
Indolente a seguir amigo de viagem.
O barco a deslizar por salobros lugares.

Apenas colocado nas pranchas cinzentas,
Esse rei do infinito, acanhado, sem jeito,
Deixa pender as asas grandes e alvacentas
Como remos por terra sem qualquer efeito.

O viajor alado é canhestro e esquisito!
Ele, tão feio agora, há pouco lindo estava!
Um cutuca-lhe o bico com pequeno pito,
Outro imita, mancando, o coxo que voava!

O Poeta é assim como esse rei dos ares
Que frequenta a borrasca, do arqueiro a zombar;
Exilado no chão entre chistes vulgares,
As asas de gigante impedem-no de andar.