Sobre os ossos dos mortos - Olga Tokarczuk

"Passou, então, pela minha cabeça, que a morte de Pé Grande poderia ser considerada, de alguma forma, algo bom, pois o libertou da bagunça que era a sua vida."

"Na minha opinião, depois da morte, a matéria deveria ser aniquilada. Seria o método mais adequado para lidar com o corpo. Assim, os corpos aniquilados voltariam diretamente para os buracos negros de onde vieram. As almas viajariam para a luz com a velocidade da luz. Isso se de fato existir algo como a alma."

"Enquanto olhava para o planalto e sua paisagem em branco e preto, entendi que a tristeza é uma palavra importante na definição do mundo. Constitui a base de tudo, é o quinto elemento, a quintessência."

"É preciso manter os olhos e ouvidos abertos, associar os fatos, enxergar a semelhança lá onde os outros veem uma completa discrepância, lembrar que certos acontecimentos ocorrem em vários níveis ou, em outras palavras: muitos incidentes são aspectos do mesmo acontecimento. E que o mundo é uma grande rede, é um todo único, e não existe nada que esteja isolado. Cada fragmento do mundo, até o menor deles, está interligado com os outros através de um complexo cosmos de correspondências, onde uma mente simplória dificilmente penetra."

"Olho para o mundo da mesma forma que os outros olham para o eclipse do sol. É assim que eu vejo a Terra eclipsada. Vejo como nos movemos cegamente na penumbra eterna, como melolontas presas numa caixa por uma criança cruel. É fácil nos machucar e nos ferir, quebrar em pedaços nossa existência intrincada e bizarra. Percebo tudo como anormal, horrível e perigoso. Vejo apenas catástrofes. Mas se a queda constitui o início, há como cair mais fundo?"

"Quando fico inquieta, imagino que tenho um zíper no ventre, do pescoço até a virilha, e o abro devagar, de cima para baixo. E depois tiro os braços dos braços, as pernas das pernas e a cabeça da cabeça. Saio de meu próprio corpo, que desliza de mim como uma roupa velha. Debaixo dela, sou mais fina, delicada, quase transparente. Tenho o corpo como o de uma medusa: branco, leitoso, fosforescente. Só essa fantasia é capaz de me trazer alívio. Só então volto a ser livre."

"Essa ligação com algo tão enorme como o céu nos incomoda. Preferiríamos ser pequenos, e então nossos pequenos pecados seriam perdoáveis. Estou convencida de que precisamos conhecer profundamente essa prisão."

"Acho que a psique humana se constituiu para nos incapacitar de enxergar a verdade. Para nos impedir de ver o mecanismo sem obstáculos. A psique é o nosso sistema de defesa – é responsável por não nos permitir entender tudo aquilo que nos rodeia. Ocupa-se principalmente de filtrar as informações, embora as possibilidades do cérebro sejam enormes. Seria impossível suportar tamanho conhecimento, visto que todas as partículas do mundo, por menores que sejam, estão compostas de sofrimento."

"Às vezes tenho a impressão de que vivemos num mundo que nós mesmos projetamos. Determinamos o que é bom e o que é ruim, desenhamos mapas de significados... E depois, durante a vida inteira, lutamos contra aquilo que concebemos. O problema é que cada um tem a sua própria versão, por isso é tão difícil as pessoas chegarem a um acordo."

"Tudo passará. Uma pessoa sábia sabe disso desde o início e não se arrepende de nada."

"Há algumas coisas que não somos capazes de entender, mas podemos senti-las muito bem."

"Nenhum coração humano é capaz de aguentar tanta dor. Toda a complicada psique humana foi criada para não permitir que o ser humano entenda aquilo que vê de verdade. Para que não descubra a verdade, envolto em ilusão e conversa fiada. O mundo é uma prisão cheia de sofrimento, construída de tal forma que, para sobreviver, é preciso causar dor nos outros."

O sol é para todos - Harper Lee

"Você é muito jovem para entender isso, mas às vezes a bíblia na mão de um determinado homem é pior do que uma garrafa de uísque na mão de... ah, do seu pai." 

"– Isso mesmo, palhaço. A única coisa que sei fazer na vida é rir das pessoas, então vou entrar para o circo e rir à beça – explicou Dill.
– Você está se confundindo, Dill. Os palhaços são tristes, o público é que ri deles – disse Jem."

"– Olha, Jem, eu acho que só existe um tipo de gente: gente. (...)
– Eu também achava isso – disse ele, por fim –, quando tinha a sua idade. Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros? Scout, acho que estou começando a entender uma coisa. Acho que estou começando a entender por que Boo Radley ficou trancado em casa todo esse tempo... é porque ele quer ficar lá dentro."

"– Quase todo mundo acha que está certo e que você é que está errado.
– Essas pessoas certamente têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter sua opinião respeitada – considerou Atticus. – Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa."

"Queria que você a conhecesse um pouco, soubesse o que é a verdadeira coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar – prosseguiu Atticus. – E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo. Você raramente vai vencer, mas às vezes vai conseguir. A sra. Dubose venceu, com seus quarenta e cinco quilos. De acordo com o que ela acreditava, morreu sem estar presa a nada nem a ninguém. Foi a pessoa mais corajosa que já conheci."

"– Mas você sabe falar direito – insisti.
– Ninguém precisa mostrar tudo o que sabe. Não é educado. Em segundo lugar, as pessoas não gostam de quem sabe mais que eles. Incomoda. A gente não muda os outros falando direito, eles precisam querer aprender. E se não querem, o jeito é ficar calada e falar como eles."

"Às vezes acho que sou um completo fracasso como pai, mas sou tudo o que eles têm. Antes de olhar para qualquer pessoa, Jem olha para mim, e procuro viver de modo que eu possa olhar diretamente para ele."

"Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá um tempo."

Rita Lee - Outra autobiografia

"Faz pouquíssimo tempo que notei que estou velha, coisa de dez anos para cá, quando abandonei os palcos. A sensação é a de que eu nunca fui tão eu mesma como sou hoje. Parece que os cinquenta anos que passei na estrada levando a vida de cigana não era eu. Parece que passei um bom tempo na caverna de Platão até descobrir o Universo e tentar desvendar os mistérios que há nele. Entendo perfeitamente o que Nelson Rodrigues quis dizer com 'jovens, envelheçam!'. Trocamos a pele de cobra e em vez de rejuvenescer por fora, renascemos por dentro, ficamos mais atentos, mais próximos da morte, e isso nos faz questionar e buscar informações que só agora parecem fazer mais sentido."

"Como é bom não ter personalidade fanática, a gente passa por tantas 'verdades', o que faz com que cheguemos à conclusão de que só mesmo sendo um espírito sem corpo físico é que vamos ter acesso aos arquivos akáshicos de nossa existência eterna até alcançar a Luz Divina. O caminho é longo, cheio de armadilhas, e o velho ditado é aqui aplicado: só os tolos não mudam de opinião."

"Sei que estou mais perto da morte do que jamais estive, mas não sinto meu coração apertar de medo, e sim que vou deixar meu corpo físico e partir para o desconhecido, do qual também não tenho medo."

"A atividade física que mais gosto é dormir."

"Diria também um monte de clichê: que vale a pena estudar mais, pesquisar mais, ler mais. Diria que não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente, que o que é normal para uma aranha é o caos para uma mosca, que uma coroa não é nada além de um chapéu que deixa entrar água, que todo dia o mundo se afoga no caos e vai ser difícil achar um lugar para observar o fim dos tempos de camarote."