Rita Lee - Outra autobiografia

"Faz pouquíssimo tempo que notei que estou velha, coisa de dez anos para cá, quando abandonei os palcos. A sensação é a de que eu nunca fui tão eu mesma como sou hoje. Parece que os cinquenta anos que passei na estrada levando a vida de cigana não era eu. Parece que passei um bom tempo na caverna de Platão até descobrir o Universo e tentar desvendar os mistérios que há nele. Entendo perfeitamente o que Nelson Rodrigues quis dizer com 'jovens, envelheçam!'. Trocamos a pele de cobra e em vez de rejuvenescer por fora, renascemos por dentro, ficamos mais atentos, mais próximos da morte, e isso nos faz questionar e buscar informações que só agora parecem fazer mais sentido."

"Como é bom não ter personalidade fanática, a gente passa por tantas 'verdades', o que faz com que cheguemos à conclusão de que só mesmo sendo um espírito sem corpo físico é que vamos ter acesso aos arquivos akáshicos de nossa existência eterna até alcançar a Luz Divina. O caminho é longo, cheio de armadilhas, e o velho ditado é aqui aplicado: só os tolos não mudam de opinião."

"Sei que estou mais perto da morte do que jamais estive, mas não sinto meu coração apertar de medo, e sim que vou deixar meu corpo físico e partir para o desconhecido, do qual também não tenho medo."

"A atividade física que mais gosto é dormir."

"Diria também um monte de clichê: que vale a pena estudar mais, pesquisar mais, ler mais. Diria que não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente, que o que é normal para uma aranha é o caos para uma mosca, que uma coroa não é nada além de um chapéu que deixa entrar água, que todo dia o mundo se afoga no caos e vai ser difícil achar um lugar para observar o fim dos tempos de camarote."